Um jogo de futebol sub-14 virou caso de polícia em Catanduva. O árbitro Thiago Carlos Berni foi agredido por jogadores, pais e torcedores após a partida entre Bola na Rede e Grêmio Olimpiense, válida pela Copa AME, disputada no último sábado, 2, no Conjunto Esportivo Anuar Pachá. Segundo boletim de ocorrência registrado na Polícia Civil, o árbitro sofreu agressões físicas depois da expulsão de atletas da equipe visitante e precisou ser levado ao Hospital Padre Albino com lesões no ombro, costas e rosto.
O relato do árbitro descreve um ambiente de tensão desde os primeiros minutos da partida. Em conversa após o caso, ele afirmou que ficou impressionado com o comportamento agressivo de parte dos adolescentes e também dos adultos que acompanhavam o jogo.
“Eu tenho muito tempo de arbitragem e nunca vi nada parecido em jogo de criança. Foi vergonhoso. Molecada muito agressiva, mal-educada, pai e mãe incentivando. Tinha treinador gritando ‘pega firme, chega forte’ para menino de 14 anos”, afirmou.
No relatório oficial da partida, Berni afirma que um atleta da equipe de Olímpia foi expulso aos 17 minutos por desferir um soco na costela de um adversário com a bola fora de disputa. Depois do apito final, outro jogador teria partido para cima do árbitro com ofensas e agressões físicas.
O documento também relata invasão de campo por familiares e torcedores. Uma mulher identificada como mãe de atleta teria xingado o árbitro e, na sequência, outros adultos invadiram o gramado. Segundo o relato, um homem desferiu um chute na costela do árbitro, enquanto outras pessoas passaram a agredir integrantes da arbitragem com socos, chutes e pedaços de madeira.
De acordo com o BO, o árbitro afirma ter sido cercado por mais de dez pessoas entre adultos e adolescentes. O registro policial cita ainda depredação do banco de reservas e necessidade de acionamento da Polícia Militar, Guarda Municipal e Samu.
“Eu fiquei meio em choque com a falta de educação e respeito. Já vi confusão com adulto, mas com criança e pai incentivando agressão foi a primeira vez. Os meninos arrebentando patrimônio público, chutando banco, gente com copo de cerveja indo para cima da arbitragem. Foi absurdo”, disse Berni.
O caso foi registrado como lesão corporal na Delegacia Seccional de Catanduva. O árbitro passou por exame de corpo de delito e pediu identificação e responsabilização dos envolvidos.
Márcio Santos, presidente da Associação Catanduvense dos Árbitros de Futebol (Acaf), lamentou o ocorrido. "A gente fica triste, porque são pais que deviam dar exemplo e, em vez disso, eles vão lá e agridem um pai de família. É muito triste ver um profissional que sai de casa para trabalhar ser agredido, ser espancado por quatro ou cinco pais. Não existe motivo para agressão."
Nota de Repúdio
A AME manifestou repúdio a qualquer ato de agressão ocorrido no âmbito das suas atividades. “A instituição reitera que não tolera condutas que violem os princípios do respeito, da integridade e da convivência ética, valores estes que norteiam todas as suas ações e iniciativas.”
Diante do ocorrido, os organizadores do torneio afirmaram ter tomado as providências cabíveis para apuração dos fatos, em conformidade com as normas internas e a legislação vigente.
“A AME reafirma seu compromisso inegociável com a promoção de um ambiente seguro, respeitoso e adequado para todos os envolvidos – atletas, colaboradores, familiares e público em geral”, complementou. “A instituição se solidariza com os envolvidos.”
O que diz a Bola na Rede
A Escola Bola na Rede, de Catanduva, disse repudiar qualquer tipo de agressão, física ou verbal, dentro ou fora dos campos de futebol. Em relação aos fatos, esclareceu que atletas, comissão técnica e pais da escola deixaram o local imediatamente após o encerramento do jogo e não se envolveram em qualquer confusão, discussão ou agressão ocorrida posteriormente.
“O Boletim de Ocorrência registrado por um dos árbitros da partida cita o nome da Bola na Rede pelo fato de a equipe sub-14 ter participado do confronto esportivo. No entanto, é importante deixar claro que a Escola Bola na Rede não esteve envolvida na confusão e tampouco em qualquer agressão ao árbitro”, ressaltou, em nota.
O texto frisa que os organizadores da Copa AME aplicaram punições aos atletas e à equipe do Grêmio Olimpiense, não havendo qualquer penalização à Escola Bola na Rede.
“Há mais de 30 anos em Catanduva, a Escola Bola na Rede tem como essência formar cidadãos, utilizando o esporte como ferramenta de promoção social, emocional e física. A escola orienta seus alunos para que compreendam que o futebol vai muito além da competição: é instrumento de formação de caráter, disciplina, respeito e equilíbrio emocional diante das vitórias e derrotas.”
E completou: “Ao longo de sua trajetória, a Escola Bola na Rede jamais esteve envolvida em episódios de brigas, discussões ou agressões em suas categorias de base, sempre prezando pelo “fair play” (que significa competir de maneira honesta, leal e respeitosa aos adversários, árbitros e torcida) e pelos valores que o esporte deve representar para crianças e jovens.”
O que diz o Grêmio Olimpiense
O Grêmio Olimpiense manifestou total repúdio aos episódios ocorridos após a partida realizada em Catanduva, o que chamou de um tumulto envolvendo membros da arbitragem e familiares, em “situação que fugiu completamente do espírito esportivo e do propósito da competição”.
“Segundo relatos recebidos pelo clube, a situação teria se iniciado após um desentendimento envolvendo arbitragem e familiares presentes no local, evoluindo posteriormente para um tumulto generalizado, com relatos de agressões físicas, fatos extremamente lamentáveis e que devem ser devidamente apurados”, relatou, em nota.
E denunciou: “Também chegaram ao conhecimento do clube relatos de supostas ameaças e intimidações direcionadas a atletas menores de idade, situação igualmente inadmissível e que precisa ser devidamente esclarecida pelas autoridades e organizadores responsáveis.”
Segundo o time de Olímpia, os familiares que relatam terem sido agredidos registraram boletim de ocorrência e estão buscando seus direitos pelas vias legais cabíveis.
“Esclarecemos ainda que a comissão técnica e direção do Grêmio Olimpiense não participaram dos atos ocorridos. No momento da confusão, membros da comissão já se encontravam fora do campo, organizando a saída da delegação e o retorno ao ônibus, retornando ao local apenas posteriormente na tentativa de conter os ânimos e ajudar a apaziguar a situação”, esclareceu.
“O Grêmio Olimpiense reforça que jamais esteve envolvido em episódios dessa natureza ao longo de sua trajetória. Nossa história sempre foi construída com base no respeito, disciplina, educação e desenvolvimento de crianças e adolescentes através do esporte. Lamentamos profundamente que um episódio esportivo tenha ultrapassado os limites das quatro linhas, quando o futebol deveria ser decidido apenas dentro de campo, de forma saudável, respeitosa e esportiva.”
Por fim, a agremiação reforçou que “não compactua com qualquer tipo de violência, agressão, ameaça ou atitude antidesportiva, seja física ou verbal, partindo de qualquer lado envolvido.”
“Defendemos que todos os fatos sejam apurados com responsabilidade, transparência e justiça, prezando sempre pela verdade dos fatos, e que, caso confirmadas irregularidades e agressões, todos os responsáveis sejam devidamente penalizados na forma da lei e dos regulamentos da competição. Nosso compromisso permanece sendo com a formação de atletas, disciplina, respeito e desenvolvimento humano através do esporte.”
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