Na quinta matéria da série Sexualidade & Envelhecimento, o médico geriatra Eduardo Marques aborda tema que ainda segue envolto em tabus e desinformação: a libido feminina e suas transformações ao longo da vida.
É comum que mulheres, e inclusive muitos homens, acreditem que a queda do desejo sexual faz parte de forma inevitável do envelhecimento. No entanto, pesquisas mostram que isso não é tão simples assim. Estudos brasileiros indicam que cerca de 60% das mulheres relatam redução da atividade sexual após a menopausa, mas o fenômeno é multifatorial e não se restringe ao envelhecimento cronológico.
“A libido feminina é dinâmica. Aqui no consultório, eu vejo mulheres que relatam perda do desejo por diferentes motivos: alterações hormonais, falta de lubrificação, dor durante o sexo ou até questões emocionais como estresse e ansiedade. Mas também vejo muitas que retomam ou redescobrem o desejo quando essas causas são investigadas e tratadas com cuidado”, explica.
Dados internacionais mostram que a falta de desejo sexual é um dos aspectos mais comuns entre as disfunções sexuais em mulheres, com grande variação de acordo com faixa etária, contexto de vida e fatores de saúde.
Para muitas mulheres, a transição pelo climatério e pela menopausa traz mudanças significativas nos níveis de estrogênio, o que pode causar ressecamento vaginal, desconforto ou dor durante o sexo, impactando diretamente a libido. “Isso não significa, necessariamente, que o desejo desaparece para sempre. Significa que o corpo sinalizou que algo mudou e merece atenção.”
No consultório, Eduardo Marques relata que alguns pacientes chegam acreditando que “é normal” não sentir desejo algum porque “não é mais jovem”. “Tenho pacientes que dizem que o desejo simplesmente evaporou, e isso não é normal quando antes elas tinham interesse sexual. Pode ser físico, pode ser emocional, pode ser uma combinação complexa de fatores, mas definitivamente merece ser investigado”, complementa.
A sexualidade feminina não é apenas questão de hormônios, mas de conexão emocional, contexto de relacionamento, imagem corporal, história de vida e bem-estar geral. Muitas vezes, o que acontece na cabeça e no coração influencia tanto quanto o que acontece no corpo.
O médico reforça que a consulta médica é um espaço seguro para conversar sobre essas questões sem vergonha ou julgamento. “Quando a mulher consegue falar sobre sua vida sexual, conseguimos olhar para as causas possíveis e fazer um plano de cuidado real, seja com ajustes hormonais, apoio psicológico, fisioterapia pélvica ou orientação sobre lubrificação e estímulo.”
A série Sexualidade & Envelhecimento continua a mostrar que o desejo é parte legítima da vida humana, em qualquer idade, e que falar sobre ele com naturalidade é um passo fundamental para o cuidado da saúde como um todo. A cada domingo, o jornal publica uma nova matéria da série, aprofundando temas que muitas vezes ficam à margem das conversas médicas e sociais, mas que têm impacto direto na qualidade de vida das pessoas.
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