Hipertensão avança entre os jovens e crianças, alerta cardiologista
Foto: Divulgação - Adriana Bellini Miola: ‘fatores de risco passaram a surgir mais cedo’
Médica Adriana Bellini Miola explica que fenômeno advém das mudanças no estilo de vida
Por Da Reportagem Local | 29 de abril, 2026

O crescimento da hipertensão arterial no Brasil nas últimas duas décadas revela relação direta entre mudanças no estilo de vida e o aumento de doenças crônicas. Dados do Ministério da Saúde mostram que a proporção de adultos com hipertensão passou de 22,6% em 2006 para cerca de 30% em 2023, o maior patamar da série histórica, o que representa aumento de aproximadamente 7,4 pontos percentuais — ou mais de 30% de crescimento relativo no período.

De estudos e pesquisas de instituições médicas, emergem outro dado muito preocupante: o aumento de casos entre jovens e crianças. Na faixa de 18 a 24 anos, 28% dos homens relatam hipertensão em algumas regiões, superando o público feminino da mesma idade, segundo a Sociedade Brasileira de Clínica Médica. E cerca de 5% das crianças e adolescentes no Brasil já apresentam a doença, segundo a Sociedade Brasileira de Hipertensão.

Para a médica cardiologista Adriana Bellini Miola, do IMC - Instituto de Moléstias Cardiovasculares, de São José do Rio Preto, o aumento de casos de hipertensão em várias faixas etárias resulta de vários fatores. “Esse avanço está diretamente associado ao envelhecimento da população, mas também ao aumento da obesidade, do sedentarismo e da alimentação rica em sódio, fatores que elevam progressivamente a pressão arterial e ampliam o número de pessoas expostas a complicações graves como infarto e AVC”, afirma a cardiologista.

Esse cenário se agrava porque hábitos cotidianos levam a um efeito acumulativo no organismo: o consumo excessivo de sal provoca retenção de líquidos e aumento do volume sanguíneo, o sedentarismo reduz a capacidade cardiovascular e o excesso de peso aumenta a resistência dos vasos, o que eleva a pressão de forma contínua.

Como consequência direta dessa combinação, a hipertensão, que historicamente era mais prevalente em idosos, passa a ser diagnosticada com maior frequência em faixas etárias mais jovens. Embora os dados nacionais ainda mostrem maior concentração da doença em idosos, estudos recentes indicam crescimento de casos em adultos jovens, associado principalmente ao estilo de vida moderno

Segundo Adriana Bellini Miola, essa mudança no perfil etário ocorre porque os fatores de risco passaram a surgir mais cedo. “Estamos observando pacientes cada vez mais jovens com pressão alta, e isso é consequência direta de uma rotina marcada por má alimentação, sedentarismo, estresse e sono inadequado. O organismo responde a esses fatores elevando a pressão arterial de forma progressiva”, afirma. Como efeito, a exposição prolongada à pressão elevada ao longo da vida aumenta significativamente o risco de eventos cardiovasculares precoces.

CONSEQUÊNCIAS

A gravidade da situação é ampliada pelo fato de que a hipertensão é, na maioria dos casos, assintomática, o que impede o diagnóstico precoce e favorece a progressão silenciosa da doença. Como consequência direta, milhões de brasileiros convivem com níveis elevados de pressão sem saber, permitindo que o problema avance até provocar danos estruturais aos vasos sanguíneos, endurecimento das artérias e sobrecarga do coração.

“A hipertensão é chamada de doença silenciosa justamente porque pode evoluir por anos sem sinais claros. Quando os sintomas aparecem, muitas vezes o paciente já apresenta alguma complicação”, alerta a médica.

Esse processo leva a uma cadeia de efeitos clínicos: a pressão elevada danifica os vasos, o que compromete a circulação e aumenta o risco de obstruções, resultando em infarto e AVC; ao mesmo tempo, sobrecarrega o coração e pode levar à insuficiência cardíaca; além disso, prejudica os rins, favorecendo a insuficiência renal. Como resultado, a hipertensão se consolida como um dos principais fatores de mortalidade no país.

NOVOS HÁBITOS

O controle da doença é possível e gera impacto direto na redução dessas complicações. A adoção de hábitos saudáveis atua na causa do problema, reduzindo a pressão arterial, enquanto o tratamento medicamentoso controla seus efeitos no organismo. “O tratamento é eficaz quando o paciente entende que a hipertensão exige cuidado permanente. Controlar a pressão significa evitar complicações graves e garantir qualidade de vida”, reforça a cardiologista.

Padrão 12x8 agora é pré-hipertensão

Mudança adotada na área médica, no ano passado, impactou o cuidado com a saúde. A pressão arterial considerada de risco mudou de patamar. Nova diretriz endossada por três sociedades médicas e divulgada em setembro passou a enquadrar como pré-hipertensão indicadores entre 12 por 8 e 13,9 por 8,9 (120-139 mmHg sistólica e/ou 80-89 mmHg diastólica). A diretriz foi elaborada pelas Sociedades Brasileiras de Cardiologia, Nefrologia e de Hipertensão.

Segundo o cardiologista e diretor do IMC, Luciano Miola, a pressão 12 por 8 ainda é considerada normal para as pessoas que não têm comorbidades, como fumo, diabetes e obesidade. "Já para as pessoas com essas comorbidades, 12 por 8 já é considerada pré-hipertensão. O objetivo da reclassificação pelas sociedades médicas é reforçar a prevenção. Nesta fase, sem que a hipertensão esteja totalmente instalada, os médicos devem recomendar mudanças no estilo de vida e, dependendo do risco do paciente, podem até receitar o uso de medicamentos", afirma.

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Da Reportagem Local
Redação de O Regional

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