Na quarta matéria da série Sexualidade & Envelhecimento, o médico geriatra Eduardo Marques fala sobre um tema pouco debatido, porém cada vez mais presente na prática clínica: as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), incluindo o HIV, entre pessoas com 60 anos ou mais.
Os números mostram que essa realidade não pode mais ser ignorada. Dados analisados no Brasil revelam que, entre 2017 e 2021, foram registrados mais de 275 mil casos de DSTs em pessoas entre 60 e 89 anos, cenário que reflete a resistência ao uso de métodos de proteção adequados nessa faixa etária. Além disso, milhares de idosos vivem com o vírus HIV.
“Eu vejo muitos pacientes e familiares que ainda pensam que DSTs ou HIV são coisas de outra fase da vida. Aqui no consultório, a surpresa muitas vezes dá lugar à preocupação e esse é exatamente o ponto em que precisamos olhar com mais cuidado e menos preconceito”, frisa Eduardo Marques.
Segundo o geriatra, a combinação de fatores que explicam esse cenário inclui relações sexuais sem proteção, falta de informação atualizada sobre prevenção e a falsa ideia de que a idade seria uma “barreira” para a transmissão. “Quando uma pessoa atinge os 60, 65 anos, ela não deixa de viver, sentir ou amar. O que mudou muitas vezes é o contexto da vida e, sem informação, isso pode trazer consequências graves para a saúde.”
Uma pesquisa brasileira aponta que a atividade sexual desprotegida é mais predominante entre pessoas com 60 anos ou mais, em comparação com faixas etárias mais jovens. Esse dado reforça a necessidade de olhar para essa população com estratégias de prevenção que levem em conta suas particularidades e vulnerabilidades.
Eduardo Marques lembra que falar sobre DSTs e HIV não é apenas um alerta clínico, mas um gesto de cuidado integral. “Muitos idosos convivem com riscos sem perceber. Alguns nunca fizeram o teste de HIV, outros ignoram a importância do preservativo. Aqui no consultório, quando conversamos abertamente, muitos reconhecem que falta informação e essa conversa é o primeiro passo para mudar esse quadro.”
Outro aspecto que merece atenção é o contexto de vida após os 60 anos. O especialista revela que acompanha muitos homens que ficaram viúvos e voltaram a se relacionar depois de muitos anos em um casamento estável, numa época em que não havia o hábito do uso de preservativo. “Ao se deparar com o novo cenário, somado à falta de informação e à confiança construída rapidamente em um novo vínculo, pode aumentar o risco de exposição”, explica.
Há também situações de relações extraconjugais que podem resultar na transmissão cruzada de infecções para a parceira fixa, muitas vezes também na mesma faixa etária. “O vírus não escolhe idade. Quando não há prevenção, todos ficam vulneráveis”, reforça o geriatra destacando que falar sobre fidelidade, proteção e responsabilidade compartilhada faz parte do cuidado com a saúde.
DIAGNÓSTICO
No Brasil, o diagnóstico tardio ainda é um desafio. Estudos recentes sugerem que pessoas com 50 anos ou mais tendem a ser diagnosticadas em fases mais avançadas da infecção por HIV, o que pode comprometer mais rapidamente a qualidade de vida se não houver atenção precoce.
Para o geriatra, a prevenção começa com a educação: “Promover informação sobre DSTs e HIV na terceira idade não é só saúde sexual, é promoção de dignidade, autonomia e bem-estar. Envelhecer com saúde também significa viver cada aspecto da vida com consciência e proteção.”
A série Sexualidade & Envelhecimento continua no jornal a cada domingo, explorando os desafios, mitos e verdades que cercam a sexualidade ao longo do envelhecimento, sempre com empatia, cuidado e compromisso com a qualidade de vida do paciente.
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