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Opinião

SAULO, UM HOMEM BELISÁRIO

Este artigo foi publicado originariamente em março de 2006 e a comovente história se revela bastante atual, principalmente nesses tempos de pandemia. O protagonista, há tempos, não é visto na Praça da República onde usualmente fazia ponto e “bicos”. Vamos a ela: – Essa é uma história real sem retoques, pinçada do nosso cotidiano. Há poucos dias o estacionamento defronte ao Edifício Yazigi, na Rua 13 de Maio, entre as ruas Sergipe e Alagoas, fechou o seu portão deixando na rua veículos de inúmeros usuários que dele faziam uso e, principalmente o desafortunado personagem dessa história. Até ai, nada de extraordinário, porquanto estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços para encerrar as suas atividades, num estado democrático de direito, não precisam prestar contas aos seus clientes e à sociedade. É a lei de mercado, onde uns são bem sucedidos e outros fecham as portas antes de completar dois anos, caso específico dos 2/3 das micro e pequenas empresas. O episódio não mereceria registro, não fosse o fato de atingir diretamente a vida de um ser humano, talvez o homem mais belisário e desprovido de bens da cidade. Saulo é o nome que emprestaremos ao nosso personagem. Com pouco menos de sessenta anos, Saulo dormia sob a marquise dos prédios do centro da cidade, tomava banho no posto de combustível, onde também lavava suas parcas e surradas peças de roupas, não mais que duas bermudas, duas calças e três camisas. Vivia e continua a viver de “bicos” como gosta de enfatizar. Seu ponto era e continua sendo na praça da República onde trabalha como balconista de bar, cobrindo férias, faltas e ausências de outros empregados. Nos bares do centro consegue sempre um prato de comida, mesmo que não esteja trabalhando – “as pessoas são muito generosas e não negam comida”, enfatiza. Não tem emprego fixo, carteira assinada e tampouco família. Conta que a mulher faleceu há mais de dez anos e não tem filhos. Vive só mas é feliz, talvez muito mais do que muitos cidadãos abastados e detentores de opolucência que desfilam pela cidade com automóveis importados do ano. Ano passado trocou as marquises dos prédios e o chuveiro do posto de combustível por um quartinho no estacionamento, onde além do teto para se abrigar, acumulava também a função de vigia do local. Com isso, seu orçamento era reforçado com mais R$200,00 mês o que lhe permitia desfrutar do luxo de consumir duas latinhas de cerveja, todo o final da tarde. Saulo, não possui sequer os pertences mínimos de sobrevivência. Não dispõe de escova dental, pois, seus poucos dentes, não mais do que quatro superiores e igual número inferiores, dispensam o uso desse pertence. Medicamentos – não usa, quando eventualmente fica resfriado ou é acometido de inflamação da garganta, coisa muito rara, socorre-se da farmácia comprando à prazo os medicamentos que lhe são indicados e orgulha-se de dizer que honra pontualmente seus compromissos. Ah, se todos fossem assim! Não possui carro, bicicleta ou qualquer outro veículo. Aliás, sequer dirigir sabe. Seus pertences não vão além de meia dúzia de peças de roupas, sempre limpas e que nunca foram submetidas a um ferro de passar. Também não possui dívidas de espécie alguma e não inicia o mês tendo a pagar inúmeros boletos e contas de toda a sorte, água, energia elétrica, telefone, etc. No seu aniversário, no início do mês de dezembro, foi lhe dado uma simples garrafa de vinho que ele agradeceu dizendo ter sido o melhor presente recebido, prometendo que a bebida seria consumida somente numa ocasião especial – no Natal. Não possui sonhos, contenta-se com a vida singela que Deus lhe deu. Documentos – apenas a carteira de identidade que revela menos idade do que aparenta e identifica um ser humano com traços leves orientais que aceita a vida como ela é, sem queixumes e lamentações. Carteira profissional – perdeu-se no tempo junto com a sua própria referência. A falta de dentes dificulta-lhe a pronuncia das palavras, mas não impede um sorriso quase sempre presente no seu rosto discretamente rechonchudo. O estacionamento de veículos, ao cerrar suas portas, muito mais do que devolver à rua mais de cinco de dezenas de automóveis, devolveu também o Saulo que, desde então voltou a dormir sob a marquise dos prédios do centro e a banhar-se no posto de gasolina, sem, contudo, perder o seu bom humor e a esperança. O Saulo é talvez o maior exemplo de que é possível ser feliz mesmo não dispondo de nada, nem sequer de sonhos.(N.R. O nome foi alterado para preservar a identidade do personagem dessa história).

José Carlos Buch
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