Opinião

Quaresma, tempo de conversão

Converter-se é voltar-se para Deus no desejo de sua graça e deixar-se tomar por sua presença amorosa. Sem Deus reina a morte como nos ensina São Paulo: “por um só homem entrou o pecado no mundo, e, pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o gênero humano, porque todos pecaram…”(Rom 5,12). Em Cristo o Pai nos reconciliou consigo e nos restituiu a vida: “…como o pecado reinou pela morte, assim também a graça reina pela justiça, para a vida eterna, por Jesus Cristo, Nosso Senhor” (Rom 5,21). Nossa redenção custou a paixão e morte de Jesus, como profetizou Isaias: “eram na verdade os nossos sofrimentos que ele carregava, eram as nossas dores, que levava às costas…estava sendo traspassado por causa de nossas rebeldias, estava sendo esmagado por nossos pecados. O castigo que teríamos que pagar caiu sobre ele, com os seus ferimentos veio a cura para nós…”(Is 53,5). Longe de entrarmos em desespero diante dos pecados que cometemos, somos tocados por tão infinito amor. São Paulo, o antigo fariseu, matador de cristãos, apanhado por Cristo na estrada de Damasco nos ensina: “Com efeito, quando éramos ainda fracos, foi então, no devido tempo, que Cristo morreu pelos ímpios. Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa muito boa talvez alguém se anime a morrer. Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores” (Rom 5,6-8). Na segunda carta aos Coríntios, São Paulo chega a afirmar: “Aquele que não cometeu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nos tornássemos justiça de Deus”(II Cor 5, 21). Quando da transfiguração – evangelho de hoje -, Jesus revelou para Pedro, Tiago e João a glória de Filho amado do Pai. O Pai, por sua vez, advertiu os discípulos com estas palavras: “Este é meu Filho amado: escutai-o”(Cf. Mt 17,1-9). E Jesus lhes repetia sempre que o Filho do Homem haveria de passar pela Cruz. E eles não conseguiam escutar de verdade esta revelação de Jesus. Era necessário que o pecado da humanidade penetrasse a carne e a alma de Jesus. Na cruz seu rosto desfigurou-se e em sua alma Jesus experimentou o infinito vazio da ausência do Pai. Naquele momento Ele estava entrando na mais profunda comunhão com o ser humano sem Deus, vivenciando em sua alma a ausência de Deus, que era nossa, como se sua fosse. É deste infinito abismo de nosso pecado que Ele realiza o mais perfeito ato de amor, exclamando em forte grito: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”(Lc 23,46). Este ato de amor arranca a humanidade do abismo da perdição e da morte e a leva até a presença do Pai. São Marcos assim descreve a sublimidade do momento: “Nesse mesmo instante, o véu do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes. Quando o centurião, que estava em frente, viu que Jesus tinha expirado, disse: ‘este homem era Filho de Deus’ ”( Mc 15, 38-39). Jesus entrou no Santuário e abriu-nos as portas do encontro com Deus. A Redenção está objetivamente feita. Cabe-nos aceitá-la. Como? “Convertei-vos e crede no evangelho”. A pergunta que devo me fazer é: “onde está meu coração?” “Com que procuro responder ao meu desejo de vida? Qual é o meu Deus? Ou seja: em que gasto minha vida? A quem a ofereço? O que tem dado sentido ao meu viver? São três as tentações fundamentais que atormentam o ser humano. A primeira: colocar o sentido da vida no consumo. Esta se relaciona com a fome: fome de tudo. Fome de dinheiro, de bens materiais, de prazer, de distração, de droga, de bebida, de sexo, etc… A esta se responde assim: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”. A segunda: usar a religião em benefício próprio, tomando o nome de Deus em vão. Ou seja, não procurar a vontade de Deus, mas querer um deus a serviço dos próprios caprichos: “Se és o Filho de Deus lança-te daqui abaixo…”, que Deus te garantirá. Esta se vence assim: “Não tentarás o Senhor teu Deus”. A terceira: a volúpia pelo poder e pela riqueza: “tudo isso te darei se caíres de joelhos para me adorar”. Ao que, com Jesus, se deve responder: “para trás, Satanás, pois está escrito; adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás”(Cf. Mt 4,1-11). Se pensarmos bem, haveremos de constatar que a destruição de nosso planeta só poderá ser evitada pela vitória sobre estas três tentações. A exploração predatória dos recursos naturais, a edificação de impérios econômicos e políticos opressores, aliados a uma religião transformada em componente da ideologia que justifica tais processos, impedem que nosso pequenino planeta seja a morada digna de uma verdadeira família de irmãos. Não basta rezar o Pai-Nosso, é necessário vivê-lo. Se peço a Deus algo pelo que não luto, minha oração é mentirosa. Comece em sua cidade, em sua casa, dentro de você. Quaresma é tempo de meditar sobre essas coisas.

Dom Eduardo

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