Opinião

PERGUNTA POR RESPONDER

Há anos, perdemos precocemente um cão, um cão ensinado, amigo de verdade. Era cão que não incomodava ninguém. Com o adestramento recebido, fazia sucesso entre crianças e adultos. E mais: enchia de alegria a casa da gente e as almas daqueles que o conheciam. Ele, coitado, foi vítima do ódio recôndito —— quiçá da inveja —— de um criminoso. Sem ressentimentos. Não deixo por menos.
Publiquei, na ocasião, no jornal A Cidade, do saudoso Nair de Freitas, carta aberta de página inteira, sob o título «A Quem Matou Tonka». Disse, ali, o que sentia e o que pensava a respeito de quem é capaz de fazer o que esse ninguém fez.
A reação de amigos e conhecidos, caracterizada pelo inconformismo e pela indignação, foi significativa. João Antônio Corniani publicou em seguida, naquele mesmo periódico, magistral crônica, lembrando que, para fazer justiça, quando aquele criminoso viesse a ter sede, dar-lhe-iam fel para beber; que, para fazer justiça, quando aquele facínora viesse a ter fome, dar-lhe-iam terra para comer. Por sua vez, o Dr. Paulo Cretella Sobrinho, advogado, presente em nossas recordações, duas ou três edições posteriores daquele matutino, indagava qual o melhor lugar para se enterrar um cão. E dava sugestão para os donos de cães que tivessem espaço nos quintais de casa.
Tudo isso me veio à mente, ontem, em razão de emocionada indagação. Alguém, que ainda não conheço pessoalmente, estava comovido ao telefone. Seu cão de estimação havia acabado de morrer, atropelado por um doidivanas da vida. Só aqueles que têm ou tiveram um ente desses em casa sabem o que significa uma perda dessas. Aqueles que não têm ou não tiveram cães em casa podem até supor que estejam diante de emoções mal administradas.
A pessoa em referência, sabendo que desde sempre os criei e quanto gosto de cães, fez-me, momento antes da represa arrebentar, a dorida pergunta: onde devo enterrar meu cão? Nos dias que correm, fica difícil dar uma sugestão nesse campo, sem cair no vazio. Torna-se complicado dar resposta adequada a essa pergunta. A senhora tem um quintal de terra? Não. A senhora tem espaço disponível em um imóvel de parentes ou amigos? Não. E as negativas foram se sucedendo. Gostaria de sugerir que o cão fosse sepultado em uma magnífica área, cheia de plantas, repleta de flores. E —— que tal? —— se o enterrasse à sombra de uma cerejeira ou de outra árvore florida? Sim. Mas onde encontrar um lugar assim?
Só em sonhos.
Ah! Sonhos! É aí que a resposta adequada começa a adquirir seu contorno. Se o cão sempre aparece para seu dono em sonhos, como se na vida real estivesse, alerta, lampeiro, abanando a cauda, rosnando alegremente, de olhos afetuosos e atentos, já não importa onde vai dormir seu sono derradeiro.
Minha prezada senhora, a senhora não perdeu seu amigo: a lembrança dele viverá para sempre.
Há, de fato, um lugar como nenhum outro para a senhora deixar seu cão. Quando aí estiver alojado, ele voltará sempre que a senhora o chamar, regressando das incertas fronteiras de onde se diz que não há regresso. E, juntos, vocês estarão novamente em trilhas anteriormente percorridas a dois. Aí hospedado, os cães ainda vivos não rosnarão para ele. Nem ficarão ressentidos com sua aproximação. Afinal, aquele é lugar somente dele. E de nenhum outro cão. Para conservá-lo, ele não precisará enfrentar adversários. As pessoas estranhas, que jamais tiveram a ventura de ter um animal de estimação, poderão ironizar e, até, ficarem surpresos de não ver o rastro de seu cão nos arredores. De não ouvirem seu choro manso. Mas a senhora sorrirá, porque sabe que seu amigo está ali. A senhora tem, afinal, conhecimento de algo ignorado pelos circunstantes. Tem a virtual certeza de que seu cão de estimação está ao alcance de sua mão. E a senhora jamais precisará garimpar a memória para trazê-lo de volta.
O melhor lugar para enterrar seu cão é em seu coração.
Ali ele ficará para sempre.

Marcílio Dias
advogado
Vereador legislatura 2001/4
Exerceu a Presidência da OAB – 41ª
Foi diretor da Faculdade
de Administração
Ex-diretor da Escola Superior
de Advocacia da OAB

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