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Opinião

OS MENINOS DA RUA PAULO

Nestes dias de isolamento, reli um senhor livro. Eu o havia lido, pela vez primeira, quando cursava o Científico. E o fiz outras vezes. Inegavelmente, é leitura que convida à reflexão. Foi escrito, aparentemente, para o público infanto-juvenil. Seu autor, Ferenc Molnár, húngaro. “Os Meninos da Rua Paulo” é o nome da obra.
A tradução é de Paulo Ronai, colaborador especializado de Aurélio Buarque de Holanda —— que fez a revisão do texto —— na confecção do Novo Dicionário da Língua Portuguesa.
É obra que contribui para que se alcance a compreensão das relações entre seres humanos. O encanto que emana de seu texto vai além da poesia e ajuda no desvendamento infindável das teias subjetivas e objetivas da realidade humana. Ambientado na Budapeste do início do Século XX, o enredo é simples: a disputa —— verdadeira guerra! —— entre dois grupos de meninos por um terreno, o “grund”, para típico jogo com bola, a “péla”! No pano de fundo, vêm a escola, a família e o mundo urbano. A simplicidade da trama contrasta com a riqueza na construção dos personagens, das relações entre eles e no desvelamento das nuances das emoções.
Tendo como objeto central o confronto entre os dois grupos, o texto revela a adoção por eles de complexa organização militar, evidenciada pelo uso de patentes, e termos como continência, voz de comando, trincheiras, bombas (de areia), ordem do dia e plano de batalha. A idade dos personagens não é revelada. Há apenas referência aos 14 anos de Boka, o general do grupo da Rua Paulo. O instigante no texto é a rede de emoções e valores que orientam o mundo desses meninos. Vai além de medo e da coragem, da covardia e da bravura, da disciplina e da liderança, da habilidade e da força. O líder dos Meninos da Rua Paulo, Boka, é, ao mesmo, tempo firme e afetuoso, severo e justo. Há pedido e concessão de perdão. Erros são reconhecidos. E reparados. Regras para o combate são acertadas entre os dois grupos. E observadas. Um invejável código de conduta, em que a honra toma o lugar central. E é religiosamente cumprido. Os meninos da Rua Paulo vivem com indescritível intensidade e diversificadas contradições como a tristeza, a crítica, a gratidão, o orgulho, a responsabilidade, a solidão, o remorso pungente, a vergonha e a inveja. E o autor, ao usar “nós” e “os nossos”, referindo-se aos meninos, deixa evidente que foi um deles. O lembrete é do tradutor.
Dos filmes feitos sobre o livro, apenas um é fiel ao texto: “Esta rua é nossa!”, produção franco-húngara.
O livro, escrito há mais de século, é atual. Recomendável, pois, sua leitura pelos que têm o mundo infantil e juvenil como objeto de reflexão e trabalho. O texto agradará, em especial, aqueles que um dia foram garotos e brincaram em turma. É excelente ponto de partida para diálogos sobre crianças e adolescentes.
Bem. Não resisti à tentação: fui a Budapest. E, ali, visitei o palco dos acontecimentos mencionados no livro: Rua Paulo esquina com a Rua Maria. Diante do prédio ali edificado, há placa comemorativa, escrita em italiano, consignando que Ferenc Molnar e seus meninos contribuíram significativamente para uma Europa sem fronteiras. Valeu a pena.

Marcílio Dias
Advogado

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