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Opinião

Há um unicórnio na sua sala de estar

Imagine se, de repente, você acorda em uma manhã no meio da semana, prepara-se para ir fazer seus ritos matinais e, quando passa pela sala de estar, há uma visita inesperada: um unicórnio no sofá.
A sensação é estranha: se por um lado há o espanto ao vê-lo, por outro há certa familiaridade nele, como se já, em algum tempo, o nosso “eu” o tivesse e até o alimentado. Curiosamente, também o unicórnio não possui cor – não é branco ou transparente, é uma “não-cor” confortável aos olhos e impossível de explicar.
A partir desse dia, o unicórnio nunca mais deixa de ser companheiro: levantando nas manhãs, pensando nos afazeres do dia, mandando mensagem de texto para o amado ou amada, estressando-se no trabalho, discutindo sobre política, visitando a família, repousando sua cabeça no travesseiro para recomeçar o amanhã.
Há dias em que o unicórnio parece mais alimentado, ativo e feliz; e há dias em que ele quase definha e morre.
Nos dias reluzentes do unicórnio, pode-se perceber que a amada ou o amado correspondeu com o que se esperava dela ou dele; o chefe fez elogios na frente dos companheiros; a família disseminou a vitória no trabalho para outros familiares e amigos; e aquela promoção com aumento de salário saiu.
Já quando o unicórnio definha, basta imaginar o contrário: há frustração com o ser amado; aquilo que se esperava do chefe e da promoção não ocorreu; a família não parece acolher, sabe somente criticar.
Essa dinâmica não é separada, ela se mescla ao longo da vida, ou seja: o amigo unicórnio passa por um eterno engordar e definhar.
Muitos ignorarão o unicórnio da sala de estar, contudo, a curiosidade do autor não pode deixar de perguntar: de onde vem este unicórnio? Para que ele está aqui?
Em outro instante, pensando sobre este ser mágico, houve a impressão de que o unicórnio sempre esteve lá. Desde a vida intrauterina e talvez até mais alimentado do que hoje. Estava também mais tarde, na amamentação, quando ele se alimentava também da mãe, não fisicamente, mas psiquicamente. Nesta época, o “eu” ainda está se formando, mas o unicórnio já estava lá, forte e feliz.
Quanto mais se acredita fielmente na simbiose entre mãe e filho, mais o unicórnio se encanta e alegra.
Diferente da origem do “eu” – fecundado pelos pais -, o unicórnio é uma criação do “eu” que, ao mesmo tempo, recria o “eu”. Afinal, ele reage de acordo com os pensamentos, emoções e sentimentos do “eu” e este reage de acordo com o ser mágico. Talvez seja por isso que não é possível perceber a cor do unicórnio, pois os aspectos dicotômicos da realidade, quando tomada como verdade última, são invisíveis aos olhos do fiel.
Por isso mesmo, a fase de definhar do unicórnio é doída para o seu dono. Este sente em cada milímetro do seu corpo e de sua alma a quase morte do animal. E pergunta mentalmente para seu chefe, família e ser amado: por que vocês fazem isso com este ser mágico? Eis outro ponto em que muitos estacionam.
Neste ponto, já se pode entender que o unicórnio é o que chamamos de expectativas, projeções, fantasias que são mais reais do que qualquer outra coisa. Muitos agarram-se aos unicórnios alimentados pelos amores, outros à família, outros têm unicórnios alimentados por fake news, por negacionismos, por políticos, etc.. E por serem fiéis à vida dos seus respectivos unicórnios, não há quem prove que o que é chamado de realidade são meras fantasias infantis.
O fato é que todos temos unicórnios e precisamos deles; mas para fazer o unicórnio evoluir, precisamos ressignificar as expectativas infantis (não da criança divina, mas da mimada) e massificadas.
Tudo começa com o recusar o alimento de outrem. Invariavelmente, gera indignação/frustração, culpabilização dos outros e, consequentemente, a falta de alimento faz o unicórnio morrer.
Renascendo alimentado dessa energia sombria que o seu dono produziu, nasce Sleipnir, a montaria mágica de Odin, um lendário Corcel Negro de 8 patas, altamente veloz e destruidor. Há também quem pare nesta sombra, recusando-se a mergulhar ainda mais. Este só enxerga destruição e acredita que tudo está perdido.
Sleipnir é necessário para separar o indivíduo da massa e das expectativas infantis. Neste corcel leva seu dono ao que muitos entendem como “fundo do poço”; nada obstante, o “fundo do poço” é invariavelmente um vaso alquímico, berço da enantiodromia.
É no mergulho para a destruição total que surge a luz da diferenciação. Essa luz é alada e branca, misturando, portanto, todas as cores. Eis Pégaso, o cavalo alado símbolo da imaginação e da imortalidade. Pégaso é a multiplicidade da realidade, em suma, é o tertium non datur da vida confortável do unicórnio e das frustrações de Sleipnir. É o viver o mundo da criança divina de acordo com as possibilidades da vida. É tornar-se, por fim, mais consciente.

Leonardo Torres
Articulista.

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