Opinião

Falando sete línguas

A Esquadrilha da Fumaça fez aniversário. Um festão na Base Aérea de Pirassununga, nos dias 17, 18 e 19 de maio! Pois é. Foi em 1952, nos bons e velhos tempos, que a Esquadrilha nasceu. Era composta por aviões «NA T-6». O ronco do motor de cada um lembrava uma jamanta repleta de trovões estrondeando pelos céus. Em conjunto, então, era um fenômeno indescritível. Só por esse detalhe, cada manobra ganhava brilho intenso, assumindo o perfil de versos de poema inacabado. Fascinante. Foi exatamente nesse ano que ela começou a fazer concorrência a Berteli. Alberto Berteli foi o maior ás de acrobacia que a terra que ostenta o lábaro estrelado conheceu. Berteli viveu bem menos do que deveria. Pena tenha ultrapassado a barreira de onde não há regresso tão cedo. Entretanto, seus feitos, que transcenderam a velhice, a doença e a própria morte, transformaram-no em personagem imortal, com direito a versões folclóricas.
Berteli, em sua autobiografia, diz que não tem certeza se o primeiro encontro entre ele e a Esquadrilha ocorreu em Catanduva ou Jaboticabal. A Esquadrilha, nesse tempo, gostava de voar na pior hora: coisa de duas da tarde. Nesse horário, há pouca sustentação. Há turbulência. Quem pilota sabe disso. Berteli, não ficava atrás, decolava logo depois, com o Bucker, aquele aviãozinho de duas asas, pouco mais que um aeromodelo, que lembra os dos filmes da Primeira Guerra Mundial. «Eu decolava depois, fazia o Bucker falar sete línguas, procurava fazer todas as manobras que eles tinham feito. Só que em voo invertido». Esse antagonismo ——— Esquadrilha para cá; Berteli para lá ——— durou algum tempo. Mas depois, logo depois, acabaram acertando os ponteiros (nessa época, os relógios ainda tinham ponteiros). Afinal, a Fumaça era grupo de aviões; o Bucker voava isolado; lá, militares; aqui, civil. Então, não poderia e não deveria haver competição entre eles, ora. Por outro lado, o Bucker permitia manobras bem mais próximas do chão, já que muito mais leve. E voando de dorso. Assim, acabaram compondo um todo harmônico. E, a partir daí, passaram a se apresentar, em consonância, por esse Brasil afora, onde houvesse festa aviatória.
Certa vez, a festa seria no Aeroporto da Pampulha, na capital mineira. Berteli, com seu aviãozinho, já apadrinhado pela Esquadrilha, recebeu autorização para pousar, mesmo sem rádio. Cauteloso, aterrissou primeiro em Carlos Prates. Dali telefonou para a torre da Pampulha. Não queria influir no tráfego comercial. Tenho ordem para chegar aí? Tem! Posso dar cambalhotas, antes de pousar? Pode! De Carlos Prates à Pampulha são três minutos de vôo. A torre havia dado luz verde. E foi assim que Berteli pintou no céu de Belo Horizonte. Deu umas viradas no aviãozinho, com o cuidado de quem maneja uma bomba atômica. E entrou no tráfego em vôo de dorso. Rodas do aparelho para cima, cabeça do piloto para baixo. Fez toda a extensão da pista em voo invertido, tão rente ao chão quanto possível. E, olha, que a pista é grande. No último momento, nem antes, nem depois, desvirou o aparelho para o pouso seguro. Quem o conheceu sabia que ele gostava de fazer seu anjo da guarda trabalhar duro e cumprir jornada extraordinária. E eis que, em resposta à sua façanha, os carros de bombeiros ficaram de prontidão, todos juntos à cabeceira da pista. Pensaram que o Bucker havia enguiçado e não iria desvirar, pousando de rodas para cima.
Ribeirão Preto. Tarde lúcida como um diálogo de Platão. Sombras já bocejando e se espreguiçando em pleno crepúsculo. Berteli, no chão, ao lado do hangar. Esquadrilha chegando. Ao lado de Alberto, um grupo de rapazes recém-brevetados criticava, em franca escalada de deboche, o desempenho da Esquadrilha, que, claro, não vinha para o pouso sem antes mostrar a que veio. Defeito apontado aqui. Defeito apontado ali. E Berteli ouvindo. Em certa altura o bravo piloto discordou dos comentários dos jovens, que censuravam a execução de determinada manobra.
–– Eu não concordo… –– disse Berteli, sem poder completar a frase.
–– Ora, cara, eu sou piloto e sei o que estou falando. Tenho oito horas de vôo!
–– Puxa! Oito horas, é? E você? –– indagou Berteli a outro dos rapazes.
–– Seis.
– Você?
–– Seis também.
–– Por que o senhor quer saber? Por acaso, o senhor também é piloto?
–– Sim. Sou.
––E quantas horas de vôo o senhor tem?
–– Quinze…
– Uau!
– Qunze mil… a maior parte delas fazendo acrobacia…
Já que o assunto estava encerrado, despediu-se, com gesto que sugere continência militar. E se afastou, com seu jeito de matuto, alma em festa, ansioso para ver os amigos que estavam chegando para a demonstração do dia seguinte.

Marcílio Dias

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