Opinião

Coração cansado

Qualquer músculo do corpo humano pode apresentar estado de fadiga e isso ocorre frequentemente quando o trabalho deste músculo é excessivo e extenuante. As pessoas acabam se queixando de um espasmo do músculo, ou seja, aquilo que conhecemos como câimbra. São muito bem fundamentadas as câimbras do bíceps, tríceps, músculos das coxas e panturrilhas, após uma corrida extenuante, partidas de futebol desgastantes etc.
Ora, se os músculos podem entrar neste estado de fadiga, nosso coração, cujo arcabouço principal nada mais é que um músculo, notadamente conhecido como miocárdio, também poderia extenuar? Câimbra do coração?
Para esclarecer esta controvérsia, alguns fatos concretos, de cunho médico, são dignos de nota. Primeiramente, o miocárdio consiste em um agregado de fibras musculares, dispostas de tal forma que o trabalho cardíaco se traduz por batimentos propulsivos, contínuos e persistentes desde a fase de concepção no útero materno até os últimos estertores de vida biológica. Estes batimentos são, na verdade, contrações do miocárdioena, para bombeamento do sangue a todos os segmentos corpóreos.
O infarto agudo do miocárdio é o exemplo clássico do que se depreende como coração cansado de forma aguda – devido ao entupimento de artérias do próprio coração, o miocárdio ou mais especificamente um território do miocárdio recebe um aporte baixo de sangue e aquela harmonia contrátil entra em falência. Em alguns casos, o miocárdio apresenta fadiga absoluta e cessam suas contrações, caracterizando a parada cardíaca e morte. Este cenário tenebroso é o que conhecemos como infarto fulminante. Por outro lado, existem os indivíduos sortudos, nos quais a evolução não é fatal, mas de qualquer forma acabam sendo encaminhados para algum procedimento invasivo, como angiopatia com implante de stent ou cirurgia para fazer cirurgia de ponte de mamária ou safena. O coração cansado de forma crônica significa um estado de insuficiência cardíaca, com histórico de longa data, de caráter progressivo e insidioso. A insuficiência cardíaca se contextualiza muito bem quando o indivíduo tem histórico de vários infartos do miocárdio, em caso de reumatismo das válvulas cardíacas (febre reumática), doença de Chagas em fase avançada e arritmias cardíacas. Todas estas situações convergem para um desfecho clínico, caracterizado por limitação física, muita falta de ar, inchaço nas pernas, distensão abdominal, redução do fluxo urinário, alterações cognitivas e de memória, retenção excessiva de líquidos e, o mais marcante, a necessidade de utilizar grande quantidade de medicamentos em doses geralmente elevadas. Como impacto final, a qualidade de vida entra em descenso, gerando depressão e alterações de autoestima.
Considerando que o coração cansado, seja na forma aguda ou crônica, produz limitação e restrição, com o agravante da morte iminente, faz-se imperiosa a prevenção. E a prevenção se fundamenta em duas frentes de conduta: adotar hábitos salutares de vida e acompanhamento periódico com cardiologista. No tocante aos hábitos salutares de vida, destacam-se alimentação balanceada, exercícios físicos, não fumar, não consumir bebida alcoólica em excesso, controlar fatores hereditários ou adquiridos como hipertensão arterial e diabetes e não consumir drogas ilícitas. Na rotina cardiológica, exames como teste ergométrico e ecocardiograma são essenciais para diagnóstico, orientação terapêutica e, sobretudo, para prevenção do “coração cansado”.

Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel
Cardiologista com
especialização em Cirurgia Cardiovascular, orientador de Nutrologia e Longevidade e coordenador da Faculdade de Medicina da Unilago

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