Opinião

As palavras (de um futuro próximo)

Quando a gente ainda nem falava, qualquer resmungo já era uma festa. Nossos pais ficavam atentos a cada detalhe, a cada sílaba, cada palavra fragmentava. Incentivava-nos, falavam tanto pra gente, que começamos com pequenos gestos. Chamávamos pela mamãe, o cachorro era au-au, para o avião lá no céu dizíamos até tchau. Pequenas palavras que logo se tornaram frases. Depois de um tempo pequenos diálogos. Que bom era falar, chegava até um ponto em que o papai pedia pra ficarmos quietos. Mas não parávamos, depois que descobrimos essa força, ninguém mais nos segurava. Perguntávamos, questionávamos e dizíamos tudo o que tínhamos pra dizer. Mas o tempo foi passando, descobrimos que nem tudo poderia ser dito ou somente poderia ser expresso para as pessoas corretas. Na oração as palavras saiam quase que silenciosas, na sala de aula às vezes disfarçada e na rua eram exageradas. E quando íamos contar algum segredo, ahh… essas palavras eram quase que necessário ser interpretadas. E enquanto a gente falava tanto, fomos crescendo, como se cada palavra dita fosse uma gota que caia numa pequena planta. Conhecemos outros meios de falar, pelo telefone, depois pelo celular. E ainda que às vezes estivéssemos de boca fechada, a gente teclava sem parar. Na rede social, através de um e-mail e ainda por correio. De repente, as estações se multiplicaram e o nosso falar se tornou menos corriqueiro. A televisão ligada em casa, o rádio no trabalho ou mensagem chegando pelo celular, tornou nosso falar quase como um motivo de alento. Aprendemos que não era preciso falar mais o dia inteiro, a não ser se alguém nos fechasse no trânsito, pisasse no nosso pé ou se simplesmente dissessem o que não gostávamos de escutar. O falar perdeu tanto o conteúdo, as palavras parecem que agora só servem pra fazer um pedido no restaurante, pra reclamar que tudo tá errado ou pra dizer que até falar virou pecado. Eu devo estar muito enganado, mas acho que Deus, quando criou as palavras, não eram pra ficarem trancadas, pra serem usadas como uma arma ou pra dar desculpas esfarrapadas. Acho que Ele deu algum tipo de poder pra nós e agora estamos esquecendo de usá-lo no meio da nossa voz. Não conseguimos mais conversar conosco em frente ao espelho. Encontramos nas esquinas somente gritos de desespero. E por mais que a todo o momento estamos rodeados de um turbilhão de informação, as palavras continuam sem sentido em nosso ser, no nosso coração. Hoje estou mudo. Eu ainda sei falar, mas cada letra que completa minhas palavras está tão apagada, sem força. Queria dizer para o paralítico andar, para o cego enxergar e para o mudo falar. Sabe, acho que eu preciso querer falar e não simplesmente falar sem querer. “Bom dia”, “até logo”, “te amo”. Tão parte de nós que não podemos simplesmente dizê-las sem tirar de nós esse pedaço e entregar junto com as palavras. Hoje eu vejo que cada palavra dita somente pode ser escrita no outro se a tinta que eu usar vier de dentro de mim. Minhas palavras não podem simplesmente voar por ai e cair em qualquer lugar. Elas precisam de destino certo e caminho traçado. Elas precisam de fé. Dizer por dizer é muito pequeno comparado ao dom de poder construir palavras em nossas bocas para escrevê-las na nossa história. Ainda é tempo de falar com o coração.

Luiz Gustavo Rotta
Autor da saga de suspense
“O CONTADOR”
faceb.com/livrocontador
http://youtube.com/c/luizgrotta

*ARTIGOS ASSINADOS NÃO REFLETEM A OPINIÃO DO JORNAL O REGIONAL

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