Opinião

A Testemunha da História

Em um cartão de metal cuidadosamente colocado na parte inferior da moldura, figurava, em letras bordadas, o nome da obra: “O Último Suspiro de Estábia”. Estábia, sabe-se, foi companheira de infortúnio de Herculano e Pompéia, aniquiladas pela ira do Vesúvio. Entre golfadas cinzentas e chamas áureas, havia um misto de surpresa e desespero em toda a cena ali retratada. Os habitantes procuravam fugir ao desfecho da tragédia. A meu lado, um homem alto também apreciava o quadro.
—— Magnífico, não?
—— adiantei-me.
—— Não! —— Foi a resposta seca. Lacônica!
Provável que seja —— disse aos meus botões —— um desses doutores universais, diplomados por alguma escola de megalomania, cuja missão social é pregar a crítica destrutiva. Não me prolongaria, não houvesse notado a nítida firmeza daquela negativa. A tela havia merecido comentários elogiosos por parte dos mais exigentes críticos. Independentemente do parecer dos entendidos, a beleza da obra estava ali para quem quisesse aquilatá-la. Era a evidência contra a convicção. Procurei contradizê-lo. Afirmei, com boa dose de segurança, que gostava do quadro.
—— Certamente porque nunca presenciou espetáculo dessa natureza…
—— E o senhor presenciou?
O estranho mantinha-se imperturbável. Dir-se-ia que o cinismo era parte integrante de sua natureza. Quem já viu um boneco de museu de cera pode ter idéia da figura de meu interlocutor. Era um boneco de cera cáqui. Em seus olhos não se distinguiam corpo vítreo, íris, córnea. Era tudo uma única mancha violácea. Seu semblante era áspero. Usava um extravagante costume engomado, feito, provavelmente, de sacos de açúcar. Pausadamente, dizendo palavra por palavra, com voz calma, quase cavernosa, sem esmagar sílabas, afirmou o estranho, despido de qualquer cerimônia:
—— Estive lá! Eu presenciei tudo.
Ou era um galhofeiro ou um débil mental. A catástrofe do Golfo de Nápoles data de setenta e nove da Era Cristã. A afirmação surpreendeu-me como se fosse coisa de Allan Poe. Antes que pudesse interpelá-lo, acrescentou:
—— Eu sou a testemunha da História. Em tudo que aconteceu, nos últimos dois milênios, estes olhos e estes ouvidos estiveram presentes. Nada para mim é novo. Nem o cantar do mais raro dos pássaros, nem a marcha das diabólicas formigas vermelhas da África causam-me admiração. Familiarizei-me com o mundo, com a natureza de seus habitantes. Como a mãe pressente o próximo lance que vai envolver seu filho, pressinto o próximo capítulo em que se vai envolver este globo. Os ciclos da História não se dissimulam. Identifico-os de pálpebras cerradas. Vi os fanáticos, os loucos, os predestinados, os medíocres. Conheço as reações da turba. A peça é sempre a mesma. Os capítulos são dispostos na mesma ordem. Somente os protagonistas é que são outros. Nero, Pedro da Galiléia, Átila, Justiniano, Montaigne, Carlos Magno são meus velhos conhecidos. Vi-os nascer. Eu os vi vegetar ou brilhar. Eu os vi morrer. Conheço todos os fatos, todas as artes, as ciências, os idiomas. Foi-me oferecida a oportunidade de observar o comportamento de cada célula de que se compõe o tecido chamado de humanidade. E esse cabedal —— embora possa tomar-me por um louco varrido! —— credencia-me a ser um cético, um crédulo ou aquilo que eu queira ser, sem a orientação ou a bênção de quem quer que seja!
Tudo isso estava sendo dito como se fosse discurso adrede preparado. O orador não se inflamava. Mantinha-se calmo. E eu estava vendido. Por preço muito baixo. Não sabia como pesar aquilo. Fitei-o nos olhos. Vi aquele par de borrões escuros, palidamente emoldurados. O estrambótico estava disposto a continuar. Como que para provocar o término da absurda palestra, indaguei:
—— Com quem tenho a honra de falar?
—— Com a testemunha da História, já lhe disse.
—— Seu nome. Como o senhor se chama, quero dizer…
—— «Se eu o disser, não me acreditaríeis…”»
Eram palavras do Nazareno, ditas no Sinédrio, segundo São Lucas. Insisti para que dissesse seu nome.
—— Asevero.
Foi-se.
Não disse boa noite. Perdeu-se nos grupos que que contemplavam outros quadros.
Aquelas quatro sílabas andaram a martelar-me o crânio, durante o resto da noite de domingo. Asevero. A-se-ve-ro. Foi em plena madrugada que, do porão da casa de Herr Freud, surgiu a informação estarrecedora, de há muito arquivada. Provàvelmente nos tempos de escola primária. Foi para um homem chamado Asevero que o Mestre, a caminho do Calvário, disse:
—— «Serás errante sobre a Terra, até que eu volte.»

Marcílio Dias
advogado vereador legislatura
2001/4 Exerceu a Presidência
da OAB Foi diretor da
Faeca Ex-diretor da
Escola Superior
de Advocacia da OAB

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