Opinião

A PIOR DE TODAS AS MISÉRIAS

Para exercer o poder, o homem precisa ser honesto, inteligente e realizador. Como se vê, o poder, segundo Jean Jacques Rousseau, em o Contrato Social, somente deveria ser usado para a prática do bem. E, por via de consequência, seu exercício, para quem está no comando, somente faria o bem. No entanto, via de regra, o homem fora do poder é um. Nele, é outro. Como no xadrez. No tabuleiro, é rei. Fora dele, é toquinho de madeira. Nada mais. Muitos escapam dessa fórmula, quase regra geral. Mas, como toda regra que se preza tem exceções, essa também tem as suas, como os homens que trazem passado e nome.

Falemos, no entanto, da regra geral.
Quando no trono, o homem parece não mais dialogar com a consciência. Afinal, a consciência é muito bem educada. Ela logo interrompe seu diálogo com aquele que não está disposto a seguir seus princípios. Apesar disso, o mandarim se sente valorizado. Poderoso. Orgulhoso. Cheio de empáfia. Desprovido de voo próprio, traz no rosto o ar levemente cômico de uma fera desdentada. A seus próprios olhos, isento de fins louváveis, não mais pertence ao mundo dos humanos. É o próprio Deus.
Tudo se enquadra no eu posso e no eu sou. Administra, com desembaraço, aquilo que pode ser chamado, sem originalidade, de fúria divina: persegue, pune, não tolera. Aos amigos, favores. Aos inimigos, que se cumpra a lei. O poderoso de plantão sabe que o segredo da força consiste em saber que, normalmente, os membros da família humana são tolerantes, acomodados, respeitadores, domesticados pela lição de casa, da escola e do templo. Campo fértil, portanto, para o exibicionismo sem fronteiras, com impulsos para a publicidade cínica e petulante, para o slogan deslavado e para os textos pretensiosos.
O poder sem moral, sabe-se, é tirania. Ai dos povos governados por um poder que pensa apenas em sua própria conservação. Quem tem poder imagina que faz acertadamente tudo quanto faz porque tem a liberdade de fazer tudo quanto quer. O poder costuma cobrir de soberba o coração de um homem. Embriaga-o, transformando-o num ególatra, ébrio de si mesmo. Causa-lhe delírios. O tirano acredita na perpetuação do presente. Pensa que é sábio, quando tudo ignora. Ignora mesmo que ignora tudo. Não sabe, por exemplo, que a moral regula os atos particulares do indivíduo e que a honra regula seus atos como homem público. O poder leva ao orgulho. O orgulho leva à insolência. Em decorrência, passa a ignorar que as agruras do poder são reais. Os prazeres, imaginários. Na destruição, é capaz de sentir-se o próprio Deus. Se é verdade que nada cria, não é menos verdade que destrói! E destrói! Aniquila uma pessoa, uma família, uma classe, uma categoria, um contingente de pessoas. No entanto, não tem o poder de ressuscitar um verme.
E quem são os que rodeiam e se reúnem em torno do dono do poder? Os aduladores. Os aspirantes a prazeres secretos. Os bufões. Os loucos. Aqueles que distraem a própria consciência. Os que levam algum. Os convocados para aplaudir o tirano quando ele se apresenta em público. Os que se dobram sem espernear, não raras vezes com indisfarçável prazer.
A pior de todas as misérias não é a que se apresenta andrajosa, mas a que se esconde sob um terno. Ao contrário do que pode parecer, o tirano da hora não é um fracasso total. Ele pode ser aproveitado na área da educação, como exemplo daquilo que não se deve fazer.

Marcílio Dias
advogado vereador legislatura
2001/4 Exerceu a Presidência
da OAB Foi diretor da
Faeca Ex-diretor da
Escola Superior
de Advocacia da OAB

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CAMPANHA ICESP

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