Opinião

A mensagem

-I rmão Noel, chega! Pare! Desse jeito, você vai acabar morrendo antes da hora… Já pensou nisso?
Era Hector, o mais velho dos auxiliares que falava com o chefe, em genuína e apropriada objeção ao que via.
Não. De fato, ele não havia pensado nisso. Diante dele estavam centenas de milhares de pedidos por atender. Todos sinceros. Mas todos extravagantes. Todos literalmente inatendíveis. Seres humanos de boa vontade de todos os recantos deste velho mundo pediam-lhe presentes de Natal: ver banidos para sempre os assaltos, os escândalos financeiros, as obras superfaturadas, os “trambiques” do pessoal que lida com os interesses das pessoas, a poluição ambiental, a fome, o analfabetismo, as doenças grotescas, os males letais, o desemprego, o amadorismo explícito em todas as áreas, a poluição ambiental, as doenças que poderiam ser evitadas, as hordas de famintos, a implacabilidade da AIDS, a canibalização eletrônica. E mais. E mais. Muito mais. Pedidos que não deixavam dúvidas: sob o delgado manto da civilização, esconde-se o negro monstro do jângal.
— É, meu caro Hector, os que demonstram ter confiança no meu taco, formulando tais pedidos, vão experimentar o gosto ruim da decepção… A uma, porque não terão o que querem (se eu puder impedir que um só coração se parta, eu não terei vivido em vão); a duas, porque serei a seus olhos incompetente. Só me resta a escolha entre perder e perder. Meu prestígio esvai-se ralo abaixo.
— Mas não está a seu alcance — advertiu Hector, com sua voz rouca e sua fleuma de monge budista, traços inconfundíveis de sua personalidade — resolver todos esses problemas… É verdade que sempre há lágrimas a serem enxugadas. É verdade que há tantos corações a serem confortados. Também é verdade que você não tem condições de atender a todos os pedidos. Reflita, homem: não está a seu alcance.
Realmente, pensou ele, a criaturinha tem razão. Mas talvez eu possa fazer algo… Imagino o dia, pensou, em que as pessoas irão deixar de praguejar, de ferir-se e de matar-se umas às outras. Darão conta, sim, de que, por mais diferentes que sejam seus pára-lamas, suas rodas e suas pinturas, saíram todos da mesma linha de montagem… Afinal, todos derramam lágrimas, todos sentem fome, todos choram, todos sorriem. E, espero que algum dia, a brutalidade humana para com o homem deixará de ser uma fórmula. E o homem já não terá de viver em permanente tensão.
E foi então que o chefe, de joelhos e mãos postas, disse, como se fosse um monge beneditino, suas orações do dia e acrescentou uma, proferida com fervor que ele jamais havia experimentado.
E, naquela noite, ele recebeu a mensagem, como se resposta às suas preces, que acolheu como inspiração divina:
— Noel. Não oferecerei o cajado aos homens de boa vontade. Direi, no entanto, algo sobre o cajado. Como usá-lo. Como não o perder. Como recuperá-lo, se o perder. Como agarrar-se a ele, para não o perder. Diga, Noel, acima de todos os telhados, a todos os homens de boa vontade, em todos os recantos da Terra onde sua voz puder chegar, que a fé continua a ser a mais poderosa de todas as armas. Advirta-os: a fé não pode coexistir ou conviver com o medo. O medo fulmina a fé. Que as criaturas não se esqueçam de que, se elas se ajudarem, Eu as ajudarei. Assim como a árvore está dentro da semente, os fins estão contidos nos meios, o efeito está no interior da causa, a solução está dentro do problema. Que se substitua a pressa pela serenidade, o impulso pela reflexão, a ambição pela generosidade, o conformismo emoliente pela garra.
Na manhã seguinte, o bom velhinho, disposto e sorridente, tal qual o concebera o lápis de Hadom Sandbloom, tinha uma missão pela frente e um problema resolvido.
E cada criatura de boa vontade, se quisesse, teria, também, a partir daí, uma missão.
E, igualmente, o seu problema resolvido, fosse ele qual fosse.

Marcílio Dias
advogado. Vereador legislatura 2001/4. Exerceu a Presidência da OAB – 41ª. Foi diretor da Faculdade de Administração
Ex-diretor da Escola Superior
de Advocacia da OAB

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