Opinião

A ética do “Já que”

Se não educarmos as novas gerações para a virtude, se tudo é válido e moralmente possível, se não há limites para o desejo do indivíduo, se não existe nada que possa exigir da pessoa doação e desprendimento, como poderemos esperar que o mundo seja melhor e que a justiça se estabeleça nas estruturas e na vida da sociedade? Com certeza a filosofia do “Já que” não ajuda em nada – só atrapalha – a formação para a prática da virtude. Concordamos com o relaxamento dos costumes e com meias soluções para problemas graves, quando não apoiamos claramente a prática do mal. Eis algumas posições da ética do “Já que”: “Já que o jogo do bicho corre solto em nossa realidade, vamos legalizá-lo e torná-lo fonte de impostos, que serão aplicados em educação”; “já que a prática do sexo fora dos ideais do amor se tornou comum, vamos distribuir camisinhas em nossas escolas e ensinar a prática do sexo seguro”; “já que muitos casamentos não dão certo, vamos instituir o divórcio e dar a qualquer união o mesmo valor dado à primeira”; “já que o homossexualismo é um fato, vamos fazer uma lei que dê o mesmo estatuto jurídico e a mesma dignidade do matrimônio aos pares homossexuais”; “já que existem muitas crianças necessitadas de pais que as adotem vamos incluir os homossexuais “casados” no número dos que podem adotar e educar crianças”; “já que clínicas de abortamento funcionam à margem da lei com riscos para as mulheres que o procuram, vamos legalizar o aborto e transformá-lo em direito para que ele possa ser executado com segurança em nossas instituições destinadas a salvar vidas e curar doenças”; “já que os(as) adolescentes em geral(?) mantêm relações sexuais com seus(suas) companheiros(as), vamos permitir que eles realizem suas transas em nossas casas, sob os cuidados de nosso olhar de pai e mãe”; “já que muitas adolescentes, não obstante todos os cuidados, correm o risco de engravidar, vamos incentivá-las a carregar em suas bolsas as ‘pílulas do dia seguinte’, que, se falharem na tarefa de impedir a fecundação, são infalíveis em impedir a nidação do óvulo fecundado”; “já que é muito freqüente que ocupantes de funções públicas se utilizem de sua posição para auferir lucros desonestos, vamos oferecer-lhes um alto salário, muito acima do padrão normal em nosso país, para que não pratiquem a desonestidade no exercício de sua missão sagrada”; “já que o uso de drogas está cada vez mais difundido, vamos legalizá-lo, colhendo vultosos impostos de sua comercialização e acabando assim com o tráfico ilícito”; “já que existem muitas vidas humanas incipientes congeladas em laboratórios, aproveitemo-las para pesquisa com células-tronco, pois assim estaremos dando a elas um destino honroso ao destruir aquelas vidas”. Não será difícil ao leitor acrescentar a estes outros “já que”. É a total concordância com a mediocridade. É assim que os maus costumes se tornam leis e ganham a “dignidade “ própria dos valores que deveriam vertebrar a vida social. A ética do “já que”é uma capitulação diante do mal presente na vida humana e incentiva o vício em suas mais variadas formas. A prática repetida de ações moralmente reprováveis – do pecado para as pessoas que crêem em Deus – gera os vícios, tanto mais arraigados quanto mais a eles as pessoas se entregam. Todos nós sabemos quão difícil é libertar-se de um vício. A tradição cristã classifica os vícios em relação aos chamados pecados capitais, pecados “chefes”: orgulho, avareza, inveja, ira, impureza, gula e preguiça ou acédia. O orgulho hoje se manifesta especialmente na busca desenfreada do poder e no desprezo ou manipulação do próximo em função da própria importância. Está associado à vaidade. A competição pode gerar a guerra. Ela é estimulada de muitas formas em nossa sociedade. A busca dos bens materiais a qualquer custo gera todas as formas de injustiça. A inveja produz o ódio e desejo de destruir o outro. A ira fica à disposição dos outros vícios que, quando contrariados, explodem em agressividade. A impureza provoca a decadência do amor e a transformação do “eros”humano em impulso cego e egoísta. A gula afoga o ser humano no desejo insaciável de preencher o próprio vazio com comida e bebida em excesso. A preguiça acompanha os outros vícios, pois todos eles medram em uma personalidade que não se encontrou por dentro e não se acostumou à luta pelo próprio crescimento. Estes vícios nunca andam sós. Caminham juntos, em comitiva e se encarregam de destruir a beleza do ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus. Ou educamos para a virtude, propondo valores que de fato enobrecem o ser humano e garantem o funcionamento ordenado da sociedade, ou colheremos sempre de novo injustiças, guerras e crimes. As virtudes básicas são quatro: prudência, justiça, fortaleza e temperança. Fica a pergunta: como educar para a virtude?

Dom Eduardo

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