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Opinião

A “Causa”

Não se assuste o leitor que não se trata da noção filosófica de causa e de efeito. Trata-se de uma expressão muito usada para significar algum ideal ou projeto a que um grupo de pessoas se dedica. Em algumas ocasiões “a causa” adquire uma tal aura de sagrado que as pessoas se sentem impelidas a darem a vida pela “causa”. Terrível quando pela “causa” se suicida, se mata e se sacrifica o discordante. Hoje é comum se falar da “causa” de Jesus. É sobre isto que quero refletir um pouco. A “causa” de Jesus é, naturalmente, o Reino de Deus. Em algum escrito li que Jesus deu a vida pela “causa”, e que nós devemos prosseguir sua luta pela “causa”. Tive a sensação de que Jesus mesmo não interessava muito a não ser como modelo a ser seguido. Entre Jesus e o reino parecia haver um hiato, uma separação. Interessava o Jesus histórico, enquanto anunciou o reino e se empenhou para concretizá-lo na história. O reino se identificava com uma nova sociedade, construída segundo os critérios da justiça e da fraternidade. Jesus morreu, a causa continua. Senti falta da experiência espiritual do Cristo Ressuscitado. O autor não me pareceu interessado em despertar o leitor para a verdade do encontro com o Senhor, pela atuação do Espírito. Seu interesse era primordialmente comprometer com a “causa”, o reino, nas estruturas da sociedade pela implantação de um modelo igualitário de sociedade. Fui tomado por uma certa indignação. Quando se perde de vista que o reino de Deus foi, no Jesus histórico, uma profunda experiência pessoal de comunhão com o Pai no Espírito, e que, a partir desta experiência, Jesus anunciou sua chegada, corre-se o risco de pensar que o reino é outra coisa que Jesus mesmo, na sua comunhão com o Pai pelo Espírito. Na verdade, o reino é a poderosa atuação do Pai no coração da história, através do Ressuscitado, na força do Espírito. A experiência do reino se dá pela fé em Jesus Cristo, pelo acolhimento de sua pessoa. Aqueles que receberam a graça dessa experiência, e a ela respondem com generosidade, empenham-se em revelá-la aos outros e em fazer do mundo uma expressão viva da comunhão trinitária (D. Puebla, nºs 211-219). É importante saber que Jesus, na sua atuação histórica, revelou o amor do Pai, anunciou a fraternidade universal, o perdão dos pecados e o amor também aos inimigos; ensinou e assim viveu, oferecendo na cruz sua vida por todos nós, ainda quando éramos inimigos, na expressão de São Paulo. Amor à “causa” de Jesus é amor a Jesus mesmo, o Ressuscitado, presente no meio de nós, atuante pela mediação dos sacramentos, sobretudo da Eucaristia; é amor a Jesus mesmo, vivido na oração, na escuta de sua palavra, no serviço aos irmãos, no empenho em construir um mundo segundo a medida do evangelho. Pode parecer não ter, mas tem profunda relação o que estamos a dizer com o que certa vez escreveu São João Paulo II quando, depois de frisar queé dever da Igreja empenhar-se na promoção do homem, acrescenta:: “mas não é menos certo que a Igreja perderia sua identidade mais profunda – e, com a identidade, a sua credibilidade e a sua eficácia verdadeira em todos os campos – se sua legítima atenção às questões sociais a distraíssem daquela missão essencialmente religiosaque não é primordialmente a construção de um mundo material perfeito, mas a edificação do Reino que começa aqui para manifestar-se plenamente na Parusia”. E mais adiante: “Mais grave seria a perda da identidade se, a pretexto de atuar na sociedade, a Igreja se deixasse dominar por contingências políticas, se tornasse instrumento de grupos, ou pusesse seus programas pastorais, seus movimentos e suas comunidades à disposição ou a serviço de organizações partidárias…” (Carta de João Paulo II aos bispos do Brasil de 10.12.80). Mas é também verdade, segundo o ensinamento de Bento XVI que, embora “a sociedade justa não deva ser obra da Igreja, mas da política, toca à Igreja, e profundamente, o empenhar-se pela justiça trabalhando para a abertura da inteligência e da vontade às exigências do bem”. E os cristãos, como cidadãos, impelidos pela caridade, têm o dever de se empenhar na construção da sociedade justa.!

Dom Eduardo Benes

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