Colunismo Social

A originalidade de Carlos Machado

Jornalista e político, Carlos Machado deixou sua marca na cidade de Catanduva

Alguns homens passam pala história e acabam não deixando nenhuma marca, nenhum detalhe, nada que o faça sobressair sobre os demais.
Outros, todavia, se destacam pela grande influência que exercem em determinados setores, tanto no campo econômico, como no cultural, religioso e social.
Há ainda aqueles que não passam despercebidos e nem fazem algo considerado tão grandioso para ocupar as páginas dos livros de História ou receber glorificações em solo nacional e internacional, mas deixam suas marcas em uma determinada sociedade, fazendo com que sua imagem seja ligada quase que automaticamente quando nos referimos a algum assunto.
Catanduva teve alguns desses homens, e hoje vou relatar a figura que mais nos faz lembrar da Câmara Municipal de Catanduva: o saudoso e único Carlos Machado, um homem simples, às vezes de cabelos despenteados, que tinha um modo próprio de tratar os problemas e nunca será esquecido em nossa cidade.

Carlos Machado
Carlos Machado nasceu na cidade de Araraquara, no dia 02 de maio de 1903, porém foi em Catanduva que construiu toda uma história de vida, participando de vários momentos da História de Catanduva.
Durante sua vida, exerceu a profissão de telegrafista e jornalista, sendo os seus escritos muitos utilizados por pesquisadores atuais, já que relatava os mais diversos fatos acontecidos em nossa cidade. Era como se em sua época, ele já se preocupava em manter viva uma história do cotidiano, da vida de Catanduva, dos fatos que muitos na época julgavam sem importância, mas que hoje percebemos o quão importante são os seus escritos. Quantas coisas do passado já foram estudadas e escritas em várias pesquisas por consequência de seus relatos.
Carlos Machado veio para nossa cidade trabalhar como telegrafista na antiga Estrada de Ferro Araraquarense, cargo este que ocupou até o ano de 1929, quando passou a trabalhar na Associação Comercial e Industrial de Catanduva.
E por falar em comércio, anos mais tarde, por volta de 1975, juntamente com o professor Giordano Mestrinelli (que na época era diretor do SESC), Miguel Elias, Orlando Gabriel Zancaner e o Dr. José Papa Júnior, contando com o apoio da Associação Comercial e Industrial de Catanduva e do Rotary Club, conseguiram transformar a antiga Associação Profissional do Comércio Varejista em Sindicato do Comércio Varejista.
Carlos Machado deu grandes contribuições em dois campos específicos: na política e no jornalismo.

Política
Na política, exerceu seis vezes o mandato de vereador (1948-1951, 1956-1959, 1960-1963, 1964-1968, 1969-1973 e 1977 a 1982), ocupando o cargo de presidente da Câmara Municipal de Catanduva nos anos de 1965 e 1969.
Também exerceu o cargo de vice-prefeito na gestão do Dr. Ítalo Záccaro. Nesta época, a contagem de votos era feita em separado entre o prefeito o vice-prefeito, onde Ítalo Záccaro se elegeu com 2.868 votos e Carlos Machado com 2.786 votos.
No final do ano de 1954, o Dr. Ítalo Záccaro renunciou o mandato por ter sido impedido por lei estadual de candidatar-se a deputado estadual, por ser brasileiro naturalizado. Foi substituído pelo seu vice no período de 1º de janeiro de 1955 a 31 de dezembro de 1955.
Outro fato curioso na vida política de Carlos Machado é o que se deu na sessão realizada em 09 de junho de 1964, onde foram cassados os mandatos dos vereadores Dr. Paulo Cretella Sobrinho (resolução nº 749) e do Sr. Carlos Machado (resolução nº 750) e declarado extinto, por renúncia, o mandato do vereador professor Édie José Frey (resolução nº 751). Paulo Cretella e Carlos Machado impetraram mandato de segurança e foram reintegrados, o que não aconteceu com Édie Frey. Nesta época de ditadura militar, esse mandatos foram cassados mais por questões político-partidárias do que por motivos ideológicos.

Jornalismo
Já no campo jornalístico, Carlos exerceu de forma brilhante a forma de relatar um acontecimento. Escreveu vários artigos dos mais variados tipos, dirigindo os jornais “A Cidade”, “Catanduva Jornal Esportivo” e a famosa “Revista Feiticeira”. Foi também responsável pela fundação dos jornais “O Corneta”, cujo primeiro exemplar circulou em 19 de dezembro de 1936, e o “Catanduva Jornal”.
Recebeu o título de “Cidadão Catanduvense” no ano de 1975, outorgado pela Câmara Municipal de Catanduva e a tribuna desta Casa de Leis leva seu nome como forma de homenagem, assim como uma rua no Residencial Granville. Carlos Machado faleceu em 13 de junho de 1985, aos 82 anos de idade.

Suas marcas
O jeito único de Carlos Machado é citado por várias pessoas que conviveram e conheceram essa importante figura.
Uma dessas pessoas foi Geraldo Corrêa, professor de Catanduva, que escreveu um livro intitulado “Minhas Piadas dos Outros”, onde relata fatos engraçados de varias personalidades catanduvenses, inclusive de Carlos Machado.
Em um dos casos, conta que Carlos Machado, enquanto desempenhava seu papel de vereador, sempre adorava fazer grandes discursos na tribuna, e que às vezes se prolongava um pouco mais em sua fala. Em uma determinada sessão, o Bacuráu (como era conhecido o Dr. Antonio Mastrocola), que também fazia parte do corpo de vereadores, solicitou ao Carlito para que não se prolongasse no discurso, pois ele gostaria de ir embora logo para poder ver sua noiva. Carlos respondeu que atenderia esse pedido seu, mas que futuramente, depois que casasse, iria ter que atender a outro pedido. Curioso em saber qual seria este pedido, Bacurau perguntou o que seria este, o qual recebeu a seguinte resposta: “Para que prolonguemos a sessão até às duas da madrugada”.
Outro fato engraçado citado pelo professor diz respeito à época em que Carlos Machado ocupou o cargo de prefeito municipal.
Nesta época, um dos vereadores que mais pegavam no pé do prefeito era o Sr. Gerson Sodré, e fazia o Carlitos “pular miudinho” com ele. Pedia informações, requerimentos, indicações, sem falar nos projetos que se tornaram posteriormente em leis.
Porém, por um determinado momento, seu suplente, Libano Pachá, assumiu sua cadeira e continuou fazendo a mesma pressão exercida pelo Gerson Sodré. E Carlos Machado se irritava com isso, já que eram demais as indicações que recebia de tal vereador.
Em um desses dias, recebeu uma indicação que o prefeito mandasse irrigar as vias públicas. E Carlos não podia providenciar, já que o caminhão-irrigador estava desarranjado.
Mas, à noite, por ironia do destino, uma boa chuva caiu sobre a cidade de Catanduva. Não teve dúvida: logo no outro quando chegou à prefeitura, mandou “despachar” aquela indicação e acrescentou no papel a seguinte frase: “Senhor vereador Libano Pachá: Após entendimentos com São Pedro, tomei a medida solicitada por vossa senhoria. Está Satisfeitozinho?”.

Thiago Bacanelli