Cidades

O Medo Por Trás Da Greve: O Bloqueio na Educação de Universidades e Institutos

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“Não sei, não faço ideia”. Foi isso que Lara Medina, estudante do câmpus de Catanduva do Instituto Federal respondeu quando perguntada sobre quais serão seus próximos passos caso a instituição de ensino seja fechada.

Ontem, dia 15, estudantes dos mais variados níveis escolares foram às ruas contra o bloqueio de 30% no orçamento anual das faculdades e institutos federais comunicado pelo Ministério da Educação. O anúncio feito gerou como consequência um ato nacional por parte dos alunos: a Greve Nacional da Educação.
Em Catanduva, a concentração de pessoas começou às 8h00, na Praça da Matriz. Entre colagens de adesivos e distribuição de panfletos, às 9h30 começaram as falas com microfone, sendo amplificadas por um carro de som.

Por volta das 10h00, mais alunos do Instituto Federal começaram a chegar, fazendo crescer a manifestação. Com eles, estava Lara Medina, aluna da escola desde 2017, onde cursa o Ensino Médio integrado ao Técnico em Química. “Sempre estudei em escola integral porque não tinha condições de ficar em casa o dia todo, minha mãe trabalhava. Eu fazia parte do projeto Cidadão do Futuro, e esse projeto possuía uma parceria com o instituto, em que éramos levados até lá para conhecer melhor. Sabia que era uma enorme oportunidade, prestei a prova e passei. Foi assim que conheci o IF”, relata Lara.

Ela, assim como mais de 800 jovens que estudam no câmpus da Catanduva da instituição federal, indignou-se com o bloqueio anunciado pelo ministro. A precariedade do Instituto já está sendo sentida na pele pelos alunos, de acordo com Lara.  Tal preocupação é confirmada pelo diretório do IF de Catanduva. “Nesse primeiro semestre, recebemos 40% do recurso anual. Semestre que vem, caso o corte se mantenha, receberemos 30%, e com isso teremos que reduzir contratos. Isso significa reduzir contratos de limpeza, de segurança, de cozinheira, de terceirizados. Ainda, com essa verba cortada, só pagaremos o custeio, e não mais os materiais para aulas práticas, como vidros e componentes químicos”. “A prioridade é pagar as contas”, finalizou em entrevista exclusiva ao O Regional.
Alunos e professores sentam no chão e quem puxa é Diógenes Sgarbi, professor de Sociologia no Ensino Médio do Instituto Federal de Catanduva. Esse professor deu, um dia antes, entrevista ao jornal: “Essa greve é caracterizada pela presença massiva dos estudantes, que de forma autônoma realizaram suas assembleias e quiseram fazer parte da manifestação de hoje”, relatou.

Às 15h00, os manifestantes desceram a rua Brasil e, às 15h20, chegaram até a prefeitura, onde realizaram mais alguns gritos e voltaram à praça. Pacífico, o ato se estendeu até às 19h00.

“Temos medo desse corte. Para as pessoas que não têm condições de ingressar numa faculdade particular por falta de dinheiro, a única saída é o estudo. E o IF promove esse ensino público de qualidade. Sem esse acesso, não podendo pagar uma particular e não passando em uma pública, não existe educação para essa pessoa”, finaliza Lara.

Nota Oficial do Instituto Federal de São Paulo

Em nota exclusiva à equipe do O Regional, o IFSP de São Paulo relatou que “Diante do fato, a reitoria do IFSP vem a público informar que o bloqueio de 30% dos recursos gera um impacto, se mantido até o final do exercício, correspondente a R$ 35 milhões no orçamento. Esta ação poderá comprometer a execução das atividades planejadas de ensino, pesquisa e extensão dos nossos 36 câmpus, para o segundo semestre. A reitoria informa que participará das ações programadas pelo CONIF junto ao MEC e ao Congresso Nacional, com o objetivo de reverter a decisão do bloqueio.”

Ministério da Educação

Também procurado, o MEC se pronunciou sobre o caso: “O orçamento para 2019 dessas instituições totaliza R$ 49,6 bilhões, dos quais 85,34% são despesas de pessoal, 13,83% são despesas discricionárias e 0,83% são despesas para cumprimento de emendas parlamentares impositivas. O bloqueio de dotação orçamentária realizado pelo MEC foi operacional, técnico e isonômico para todas as universidades e institutos, em decorrência da restrição orçamentária imposta a toda Administração Pública Federal por meio do Decreto nº 9.741, de 28 de março de 2019, e da Portaria nº 144, de 2 de maio de 2019”.

Da Reportagem Local