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Morte negra e política, uma comparação Brasil e EUA

O assassinato brutal de George Floyd, norte-americano negro de 46 anos, pelo policial branco Derek Chauvin, cujo vídeo se espalhou por todo planeta, deu início a mais uma onda de manifestações antirracistas nos EUA, país com tradição de protestos violentos.
A palavra em inglês para denominar tais eventos é riot, que em português é traduzida por “revolta”. Nos EUA, os riots muitas vezes envolvem conflito racialmente motivado.
O Harlem riot, de 1935, foi o primeiro evento em que negros reagiram com violência a um ato violento de racismo praticado por brancos, no caso, o espancamento de um jovem porto-riquenho pelos empregados brancos de uma loja. Mas a tradição de protesto violento é tão antiga quanto os próprios EUA. Ao longo do século XIX e por boa parte do XX, os negros foram muitas vezes objeto dessa violência de massa.
Dez dias antes da morte de Floyd, o adolescente negro João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, foi morto com um tiro no abdômen resultante de uma operação conjunta das polícias Federal e Civil do Rio de Janeiro no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. Como Floyd, João Pedro era negro, habitante de região marginalizada de sua cidade e foi vítima de violência policial.
Se nos EUA a morte de Floyd gerou uma enorme onda de indignação que arrastou para as ruas negros e brancos simpáticos à causa antirracista, no Brasil a perda brutal da vida de João Pedro foi banalizada ou ignorada por boa parte dos atores políticos.
Em grande medida, sua morte foi tratada como mais um evento na sequência interminável de mortes violentas de jovens negros por ação de forças policiais. Enquanto a morte de Floyd foi noticiada aqui no Brasil como estopim dos riots e de um acalorado debate sobre desigualdade racial nos EUA, a morte de João Pedro foi raramente tratada pelos meios de comunicação como um evento associado ao racismo das abordagens policiais e da sociedade brasileira como um todo. E mesmo quando foi, não houve continuidade no debate. Em muitas notícias, sequer foi citado o fato de João Pedro ser negro.
Se olharmos para o aspecto político dos eventos, notamos que a diferença se alarga. E esse alargamento não se deve exatamente à falta de mobilização dos movimentos sociais. Os movimentos negros brasileiros de fato foram movidos pela morte trágica do menino carioca, promoveram eventos, debates, campanhas de esclarecimento, mas essa reação não virou movimento de rua de massas.
No âmbito da representação política o evento passou praticamente batido. Não houve uma mobilização expressiva de políticos antirracistas para propor medidas que busquem mitigar essa prática que os movimentos negros chamam de genocídio racial, não sem razão. Poderíamos atribuir à pandemia essa banalização do evento por parte da política de rua e institucional. Mas os EUA estão sendo afetados por ela tão seriamente quanto nós. Podemos tentar atribuí-la ao governo de extrema direita sob o qual estamos, que supostamente sufocaria tal debate, mas nos EUA, novamente, as coisas não são tão diferentes.
Resta o enigma: por que no Brasil, país pós-colonial como os EUA, com uma população negra numericamente bem mais expressiva, o racismo tem tantas dificuldades de ser politizado?
A resposta tradicional oferecida pela ideologia da democracia racial era de que aqui não havia racismo, ou que ele seria gentil e brando. Essa é uma mentira deslavada que não resiste ao exame mais superficial dos dados da violência policial, das taxas de encarceramento e do tratamento pelo sistema de justiça. Isso sem falar em mortes violentas com forte componente racial que não são causadas pelo Estado, como a de Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos, que também acaba de ocorrer.
Mas talvez a ideologia da democracia racial ainda seja muito eficaz em interditar a politização do racismo, em torná-lo banal.
Há muitas razões para sofrimento nisso tudo, mas nenhuma para desistirmos em colocar na pauta esse que é certamente a maior aflição da nossa sociedade: o racismo. A democracia racial perdeu bastante terreno nas últimas décadas, mas ainda falta muito para nos livrarmos dessa compreensão defeituosa da nossa sociedade.

João Feres Júnior
Professor de Ciência Política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), da UERJ e coordenador do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA).

*ARTIGOS ASSINADOS NÃO REFLETEM A OPINIÃO DO JORNAL O REGIONAL

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