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FOMOS CONDENADOS A NÃO DIGERIR VELHACOS

Alguém disse ou escreveu que são os homens com sua inteligência, seu trabalho e sua honestidade que fazem as pátrias. E, de quebra, outrem ponderou: um homem 99% honesto é 100% desonesto, eis que a honestidade não admite fracionamento. Uma /8 filósofa russa, de ascendência judia, fugiu da revolução de seu país. Veio para os Estados Unidos, na metade da década de 20, século passado. E em função desse quadro, ela se declarava russo-americana. Seu nome: Ayn, Ayn Rand. Escreveu A Revolta de Atlas, em dois volumes, obra de leitura obrigatória. Seu livro exibe visão com conhecimento de causa. Ali ela diz: «Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia, não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho; e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em autossacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada».
Valhamo-nos da memória, bem como dos informes que nos chegaram pelos mais diversos meios. Não é preciso colocar em linha de conta a vassourinha, peça de efêmera permanência na Presidência da República —— afinal «…o povo já está cansado, de sofrer dessa maneira!» —— ou nem mesmo um envaidecido caçador de marajás! Os fatos noticiados, envolvendo homens públicos —— expurgados os «fakes» ——, ocorridos nos últimos tempos, confirmam a verdade ali retratada. Não será difícil encontrarmos exemplos para cada componente da fórmula apontada pela escritora. Ao acaso, indaguemos. Quantos empresários, para produzir, dependem de quem não produz nada? E o dinheiro, não raras vezes, não flui para quem negocia com favores? Quantos não ficaram ricos pelo suborno, pela influência, muito mais do que pelo trabalho? Quantos estão na rua e que deveriam estar na cadeia? Não conhecemos gente condenada que deveria estar cumprindo pena? Fizeram o que fizeram e as leis não nos protegeram deles. Antes, são eles que estão protegidos da gente. Se não pela lei, pela interpretação da lei. E a corrupção? Não tem ela sido regiamente recompensada? A honestidade, por acaso, não tem se convertido em autossacrifício? Não conhecemos notórios réus que viajam para o exterior, sem que sua bagagem não seja nem mesmo, ainda que apenas para salvaguardar aparências, fiscalizada por determinações superiores, cujo lugar, de acordo com os respectivos processos, deveria ser entre grades? Não há a turma do «você sabe com quem está falando?» E, por acaso —— por mero acaso e por sorte —— um desses figurões de alto escalão foi recentemente filmado, por duas vezes, em ocasiões diferentes, cometendo a mesma falta, deixando evidente quão abaixo de seu papel social alguns homens públicos se colocam, deliberadamente.
Se assim é, poderemos afirmar, sem receio, que nossa sociedade está condenada.
Há —— e nós o vislumbramos, graças a Deus! —— um senhor rumo se descortinando, em sadia gestação, edificado pela benfazeja Comunidade do Celular, pela extraordinária Rede Social. Nela, onde todos participam, não há textos sórdidos que resistam. Tampouco há coluna vertebral para basbaquices. Não há comportamento censurável que não deixe suas entranhas expostas.
Por intromissão, pela rede, notícias, artigos e editoriais, regados a bílis em veículos tradicionais, nunca bem intencionados, encontram seu cadafalso tão logo venham à luz. E, aí, as máscaras são removidas. E vem o estímulo para quem quer produzir, independentemente do aval de quem nada produz; denunciando para quem vai o dinheiro, negociante de favores; entregando os que ficam e ficaram ricos pelo suborno e por influências. E não pelo trabalho. Denunciando gente como aquele que foi reprovado por duas vezes, mudando o que deve ser mudado, no concurso para escriturário do banco, hoje é presidente desse banco! O fim? Não? Fincam-se estacas para que, no futuro, para que sejam trazidas a lume normas para acabar com as interpretações das normas que os protegem, A história do «trânsito em julgado da decisão de segunda instância» há de ter interpretação que traga à luz a confiança do cidadão nos Três Poderes. A honestidade há de falar muito mais alto! Sempre! Sempre.
A maledicência e o clima de conspiração, pelo que se vê, entraram em fase comatosa. Pode ser que durem. Pode. Mas não resistirão a qualquer medicação. Ah! Isso não!
Com a palavra Levi Davidovich Landau: «O honesto representa da melhor forma o seu papel, sem pensar na galeria».

Marcílio Dias
advogado
advocacia@marciliodias.com

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