Cidades

Entrevista 08-10-2017

(Arquivo Pessoal)
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“Poder dar voz a quem não fala, por meio da Comunicação Alternativa, tem sido o melhor resultado e a motivação de meu trabalho” é dessa forma que Cândice Lima Moreschi destaca a satisfação nas atividades com pessoas especiais.
Ela aponta que o que para muitos pode ser um pequeno ganho, sempre é visto por ela como algo magnífico. “Procuro ser extremamente observadora durante o processo de avaliação e terapia, caracterizando cada intenção comunicativa, cada olhar, cada gesto. Esse olhar atento, levo para as orientações de pais e professores. É preciso que eles adquiram este olhar observador para que possam ressignificar suas condutas”, complementa.
Cândice, que é fonoaudióloga e professora ministrou uma palestra ontem (7) no simpósio inédito sobre o autismo realizado em Catanduva. Lá, ela pode passar conhecimentos sobre a Comunicação Alternativa e o desenvolvimento de habilidades de linguagem por meio de troca de figuras. Cândice também é doutora em Educação Especial pela UFSCar. Em entrevista ao O Regional, ela falou sobre os desafios da educação especial na atualidade, sobre o uso da tecnologia e como os pais podem perceber os sinais de que o filho é especial. Confira:

O Regional – Quais são os desafios da educação especial na atualidade? As escolas, sejam elas públicas ou particulares, precisam de que recursos?
Cândice Lima Moreschi – A necessidade de promover uma sociedade inclusiva já está posta nos dias atuais. Um longo caminho foi percorrido para que chegássemos no reconhecimento da importância de tal processo. Atualmente a educação especial ocupa o espaço de interlocutor entre os profissionais que possuem conhecimento técnico sobre o público alvo da educação especial e a escola regular e seus atores e o seu maior desafio está em promover esta interlocução da melhor forma possível.

O Regional – A tecnologia pode ser considerada uma ferramenta no trabalho com pessoas especiais? De que forma?
Cândice Lima Moreschi – Certamente! A tecnologia tornou-se aliada não só para este público como também para todos os alunos em um ambiente escolar. Os tablets e celulares, por exemplo, são utilizados durante situações de diálogo a partir de aplicativos de comunicação.

O Regional – Como os pais podem identificar os sinais de que o filho é especial? Quais são os principais alertas que eles devem ter?
Cândice Lima Moreschi – Para cada tipo de deficiência, transtorno ou no caso de altas habilidades existem sinais típicos que devem ser observados pelos familiares. Quando especificamos os sinais de alerta para as alterações de comunicação os pais devem ficar atentos quando a criança tem dois anos de idade e ainda não forma frases com duas palavras; apresenta uma fala difícil de compreender ou apenas familiares compreendem; não interage com pais/irmãos/amigos por meio de troca de olhar, brincadeiras, sorrisos já a partir dos 18 meses de idade; apresenta atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor (demora para sentar, engatinhar, andar).

O Regional – O número de crianças especiais vem aumentando consideravelmente. Acredita que esse aumento esteja relacionado ao tema ser mais falado na atualidade do que antigamente? Acredita que a informação faz com que os casos sejam diagnosticados com maior facilidade? De que forma a ferramenta pode ajudar no alerta as famílias?
Cândice Lima Moreschi – Acredito que o aumento dos casos deve-se ao intenso trabalho que se tem feito, principalmente com médicos pediatras, quanto ao diagnóstico precoce. Estes profissionais recebem em seus consultórios milhares de crianças que apresentam sinais precoces de alterações e são os responsáveis diretos por encaminhar estes casos para avaliações mais específicas. A divulgação pelas redes sociais tem contribuído de maneira significante para que pais, educadores e população em geral observem mais o desenvolvimento de vossas crianças.

O Regional – O tema da sua palestra em Catanduva é: Comunicação Alternativa – desenvolvimento de habilidades de linguagem por meio de troca de figurinhas. De que forma é feito esse trabalho? Como funciona a comunicação alternativa?
Cândice Lima Moreschi – A Comunicação Alternativa é utilizada há diversos anos na prática Fonoaudiológica como recurso terapêutico nos casos de distúrbios da comunicação. Por meio de figuras icônicas, ou seja, representativas de objetos, sentimentos, pessoas, locais, a pessoa com déficit na comunicação oral pode expressar seus desejos e sentimentos. Por se tratar de um sistema linguístico deve ser aprendido e uma das formas de se realizar este processo de aprendizagem é oportunizar a troca de figuras por itens desejados. A pessoa então aprende que para obter algo que não está ao seu alcance ela pode solicitar mostrando a figura expressando seu desejo. Este método tem sido utilizado com grande sucesso na intervenção fonoaudiológica em TEA.

O Regional – Qual é a importância do diagnóstico precoce no caso de crianças especiais?
Cândice Lima Moreschi – Extremamente importante, pois quando diagnosticamos uma criança precocemente com alguma dificuldade é possível iniciar a intervenção e a chance desta criança ter um desenvolvimento próximo do típico ganha força. Claro que o sucesso da intervenção dependerá de cada situação e uma série de variáveis, mas iniciar a intervenção precocemente é sempre o melhor caminho.

O Regional – O que os pais que tem filhos especiais devem aprendem para terem um bom relacionamento em família? Quais são os cuidados?
Cândice Lima Moreschi – É importante que esses pais vivam inicialmente seu luto; há que se compreender que existe uma “perda” do filho/a idealizado. Após esse período esses pais precisam ser acolhidos e trazidos para o processo terapêutico como atores principais neste processo. Em parceria com os terapeutas eles podem ressignificar o relacionamento com seus filhos, aprender como lidar com diversas situações. Quando os pais seguem este caminho, empoderam-se da causa e abordam sobre o tema com qualquer familiar, sem preconceitos ou restrições. Vale lembrar que esse caminho não é fácil e muitos pais acabam por não conseguirem chegar ao empoderamento, principalmente por falta de um acompanhamento psicológico para tratar suas feridas.

O Regional – Acredita que a inclusão, seja nas universidades, seja no mercado de trabalho traz benefícios para as pessoas especiais? Nosso país está preparado e apto para essa inclusão?
Cândice Lima Moreschi – A inclusão, nos diversos contextos da nossa sociedade, tem transformado, conceitos e perspectivas daqueles que entram diretamente em contato com este público. Sabemos que muito temos a percorrer para que a acessibilidade (comunicativa ou física) não seja vista como algo não pertencente ao meio, mas estamos na direção certa!

O Regional – Antes o tema pessoas especiais não era tão discutido. Qual é a importância de que esse tema seja não só discutido como também soluções nos tratamentos possam ser apresentadas? Para que essas pessoas especiais consigam ter maior qualidade de vida?
Cândice Lima Moreschi – O debate constante deste tema trás sempre novas experiências, relatos de famílias, profissionais, novas técnicas terapêuticas. Tudo isso só contribui para a evolução da ciência e beneficia quem está na outra ponta – os assistidos.

O Regional – Qual é a maior satisfação no trabalho em pessoas especiais? Os avanços de cada paciente? O que te move nesse trabalho?
Cândice Lima Moreschi – O que para muitos pode ser um pequeno ganho sempre é visto por mim como algo magnífico. Procuro ser extremamente observadora durante o processo de avaliação e terapia, caracterizando cada intenção comunicativa, cada olhar, cada gesto. Esse olhar atento, levo para as orientações de pais e professores; é preciso que eles adquiram este olhar observador para que possam ressignificar suas condutas. Poder dar voz a quem não fala por meio da Comunicação Alternativa tem sido o melhor resultado e a motivação de meu trabalho.

Cíntia Souza
Da Reportagem Local