Início - DEUS LHE PAGUE

DEUS LHE PAGUE

Joracy Camargo escreveu Deus Lhe Pague, a primeira peça brasileira encenada além de nossas fronteiras. Foi o maior sucesso de todos os tempos do teatro brasileiro, na primeira metade do século passado. Alcançou prestígio internacional, sendo adaptada para o cinema no exterior. Foi representada, só no Brasil, mais de 14 mil vezes… Vale a pena conhecê-la.
O enredo, basicamente, envolve dois mendigos, um de verdade, mais moço, e outro, mais velho, que faz de conta que é do ramo. E isso porque quer se vingar da sociedade, eis que, quando moço, fora vítima de traição. Este se propõe a ensinar ao outro lições, expedientes e truques da profissão de pedinte. Em certa altura, ambos sentados na escadaria de uma igreja, o mais velho indaga de seu interlocutor: como é que o senhor, Seu Barata, pede esmolas? Uma esmolinha pelo amor de Deus… responde o mais moço. Ora, retruca o mestre, com esse método o senhor não terá sucesso profissional. Quer ver? Aí vem um passante, peça a esmola no seu estilo. O transeunte nem dá atenção ao murmúrio lançado. Em seguida, o mais velho, dirigindo-se a outro passante: dai de comer a quem tem fome! O abordado para, abre a carteira e entrega nota de certo poder aquisitivo ao mendigo. Viu? O senhor tem que falar em fome. E há de falar em fome onde não há comida. Ué? Por quê? Porque se o senhor pedir comida, é comida que eles vão lhe dar. E não é comida que o senhor quer. É dinheiro.
Noutro ponto, o mestre filosofa: veja, Sr. Barata, o que diz o Pai Nosso: «perdoai as nossas dívidas assim como perdoamos os nossos devedores». O senhor conhece alguém que perdoa dívidas, que perdoa devedores, Sr. Barata? Coincidentemente ou não, o Concílio Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII, alterou o texto da oração que Jesus nos ensinou: «perdoai as nossas ofensas, assim como perdoamos aqueles que nos tem ofendido».
Num diálogo trazido à cena, fora da cena mencionada linhas atrás, o mendigo mais velho pergunta a determinado interlocutor: o senhor sabe ler e escrever? O interpelado responde, com orgulho: Eu sou advogado! Ora, retruca o que formulou a pergunta: perguntei se o senhor sabe ler e escrever, e não como o senhor ganha a vida. Registre-se que a peça foi escrita em 1933…
Seu maior intérprete foi Procópio Ferreira, pai da Bibi. Ele fazia o mendigo mais velho.
Juca Chaves, conhecido pelo seu extraordinário talento, irreverência e notório por sua baixa estatura, conta, em «Eu, baixo-retrato», sua autobiografia, como foi apresentado a Procópio:
—— Muito prazer, Juca Chaves, o grande!
—— O prazer é meu, Procópio Ferreira, o pequeno!
Procópio tinha o compromisso de apresentar o Deus Lhe Pague em Porto Alegre. No saguão do hotel em que estava hospedado, rodeado de admiradores, os promotores do espetáculo chamaram-no para ser apresentado a Flores da Cunha, governador do Rio Grade do Sul, Este —— em atitude desastrosa na concepção e desastrada na execução —— se recusou a dar a mão a Procópio. Afirmou, para os circunstantes, que «este governador de Estado não dá a mão a artistas de teatro». Entre parêntesis, registre-se que essa era, na época, estranha conduta padrão de gente que se julgava importante: os artistas de teatro eram olhados com menoscabo. Era atitude de quem se esmerava em sua selvageria. Soa estranho. Mas, afinal, coisas altamente improváveis acontecem na vida.
À noite, teatro lotado, dado o terceiro sinal, as cortinas não se abriram. No centro do palco, surgiu a figura de Procópio Ferreira, sem o traje característico da peça. Estava de smoking. Tomou o microfone e, com o vigor de sua serenidade moral, disse em tom categórico:
— Nesta noite, senhoras e senhores, não haverá função. Este artista de teatro não representa para governadores de Estado.
E Flores da Cunha, a quem foi endereçado o olhar de toda a plateia, estava no camarote presidencial. Ele nem mesmo pôde se esgueirar pelas sombras como um sabujo silencioso.

Marcílio Dias
advogado. Vereador legislatura 2001/4. Exerceu a Presidência da OAB – 41ª. Foi diretor da Faculdade de Administração
Ex-diretor da Escola Superior
de Advocacia da OAB

*ARTIGOS ASSINADOS NÃO REFLETEM A OPINIÃO DO JORNAL O REGIONAL

%d blogueiros gostam disto: