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A Mãe e a Paz

“Ela deu à luz seu filho primogênito, envolveu-o em faixas e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. Havia naquela região uns pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do seu rebanho. Um anjo do Senhor lhes apareceu e a glória do Senhor os envolveu de luz. Os pastores ficaram com muito medo. O anjo então lhes disse: “Não tenhais medo! Eu vos trago uma Boa Nova de uma alegria que será também de todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor! E isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido, envolto em faixas e deitado em uma manjedoura”. De repente, juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste cantando a Deus: “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos seres humanos por Ele amados”(Lc 2,7-14).
Os pastores, os mais pobres dentre os pobres de seu tempo, e esquecidos, foram os primeiros a receber a notícia da “grande alegria” do nascimento de Jesus, o “Salvador, que é o Cristo-Senhor” (Cf Lc 2,10-12). O coração deles foi inundado por um profundo sentimento de paz vindo do céu, que a terra tal dom era incapaz de dar-lhes: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados” (Lc 2,14). A verdade do que sentiam diante do anúncio do celeste canto, eles a constataram quando contemplaram na manjedoura o menino envolto em faixas, tão pobre quanto eles, e viram no semblante da mãe e de José a expressão de uma alegria serena e silenciosa, feita de louvor e de adoração. “Vendo-o, contaram o que lhes fora dito a respeito do menino; e todos os que os ouviam ficavam maravilhados com as palavras dos pastores. Maria, contudo, conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração” (Lc 2,17-19). Os pastores voltaram felizes para a sua lida cotidiana: “retiraram-se, louvando e agradecendo a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, de acordo com o que lhes tinha sido dito”(Lc 2,20). O mundo continuava o mesmo em toda a parte. O Império continuava, na sua fome de dominação, a impor a “Pax Romana” a todos os povos. Maria, a mãe, longe de se abater por ter dado à luz o seu filho longe de sua casa, em uma gruta, aconchego de ovelhas e pastores nas noites frias e chuvosas, com certeza, meditando, como era seu modo de ser, verificava, com renovada alegria, a verdade do seu canto no qual havia enaltecido o Deus dos pequenos e dos pobres. Ela meditava em seu coração: “como o meu Deus é desconcertante! Quis nascer aqui, no lar de pastores, esquecidos e desconhecidos, despojados de qualquer poder ou riqueza, por isso mesmo capazes de uma alegria outra que não as falsas alegrias, e ruidosas, dos palácios e das festas dos poderosos”. Ninguém pode negar: ali reinava a Paz, uma paz profunda, que coração humano algum jamais sonhara. A Mãe, Maria, ia e vinha nos seus pensamentos e sentimentos, revivendo o seu canto, – o “Magnificat”- na exultação e no louvor. Ela bem sabia que ali estava a Paz, raiz daquela paz sonhada pelos profetas de seu povo: a Paz-Shalom, vida em abundância para todos os homens, paz do céu – da qual a terra tinha fome – na gruta de Belém, a “casa do pão”. Naquela manjedoura estava a proclamação da dignidade de todos os homens, amados por Deus por si mesmos, imagem e semelhança do seu próprio ser. Celebrar o Natal é, com a Mãe de Deus, anunciar que no mistério de cada ser humano se esconde o mistério maior do próprio Deus. Aquele recém-nascido não é ele mesmo Emanuel, Deus-conosco? Como não ver de agora em diante em cada pessoa a presença misteriosa do Filho de Deus?! O que a Mãe compreende e nos ensina é que o nosso Deus se misturou conosco – fez-se um de nós – e quis vir no despojamento para nos indicar que nossa grandeza não nos vem de fora – vestes finas, palácios, prestígio humano -, mas está insculpida em nosso próprio ser, onde brilha refletida a imagem daquele cuja face está sempre voltada para nós a nos contemplar com ternura de Pai. Fora desta experiência não há conversão, não há mudança, não há esperança. A paz está na Verdade, oculta na fragilidade de uma criança e luminosa no olhar da mãe, que contempla, tomada de ternura, o infinito do amor na pequenez do menino envolto nos panos da humana pobreza. É preciso crer que o mistério de Deus se esconde e se dá a nós no outro, irmão, que bate à nossa porta em busca de abrigo. Reconhecer em si mesmo e nos outros essa verdade e fazer dela a alma da convivência humana é caminho seguro para implantar a paz no mundo. Que o olhar da mãe Maria se torne nosso para podermos desfrutar da imensa alegria de experimentar a presença do mistério de Deus na pobreza de nossa existência! E que o ano que vai começar seja de paz para toda a humanidade! Amém.
Dom Eduardo, Arcebispo

Administrador Apostólico da Diocese de Catanduva

*ARTIGOS ASSINADOS NÃO REFLETEM A OPINIÃO DO JORNAL O REGIONAL

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