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A fé, garantia da esperança

Dois filósofos ateus abordaram a questão da existência humana, sob o ângulo da esperança. Ambos afirmaram com veemência que a esperança está na raiz do empenho humano. O primeiro só o fez, dentro desta ótica, no final de sua vida. Trata-se de Sartre, o filósofo da angústia, da náusea, do nada. É dele a afirmação: “o nada está no coração do homem” “como um verme”. Escreveu também: “é absurdo que tenhamos nascido e é absurdo que devamos morrer”. Para Sartre é a esperança que está na raiz das decisões do ser humano de modo que a vida humana pode ser pensada como um encadeamento de esperanças, que se encerra no fim de todo esperar: na morte. Se o último elo da corrente mergulha com a morte no vazio absoluto, todos os elos anteriores se precipitam igualmente no vazio. No final de sua vida Sartre retomou sua reflexão para dizer que a esperança é de verdade a razão do agir humano e que a esperança postula um fim último, além dos objetivos imediatos. Os fins intermediários só têm sentido em relação a este fim. Mas como Sartre não cria em Deus, ele apostava em um fim último assim por ele descrito: “nosso fim é chegar a um verdadeiro corpo constituído, em que cada pessoa seria um homem e em que as coletividades seriam igualmente humanas”. Mas ele mesmo confessava que havia em seu pensamento uma contradição que ele esperava resolver: a esperança é sua convicção maior, mas o malogro continua sendo uma realidade na vida das pessoas. Todas morrem. Pensava resolver a questão apostando num futuro onde os seres humanos seriam plenamente humanos. O segundo filósofo, anunciado no início, é Ernst Bloch que, em sua obra “O Princípio Esperança” procura dar alma e mística ao marxismo, denominando esperança ao dinamismo da matéria, interpretando o conceito aristotélico da matéria prima, pura potência, como o permanente poder ser da matéria sempre em ascensão. Lembra Teilhard de Chardin, mas um Teilhard ateu, que espera o desfecho do processo histórico como a explosão da última novidade, que consumará a esperança pela plena maturação do ser humano, em total sintonia com a natureza transfigurada pela ação do homem, quando todos os homens entrarão em universal comunhão. A história está grávida desse parto e um dia ele acontecerá. Só que nem eu, nem você, participaremos das alegrias desse desfecho. Quero, entretanto, chamar a atenção do leitor para a verdade irrecusável que os dois autores explicitam. A história, seja da pessoa, seja da humanidade como um todo, tem uma matriz permanente: a esperança. Ninguém se decide por alguma coisa a não ser na esperança. O suicídio é a afirmação de que sem esperança não é possível continuar vivendo. A esperança é a expressão de que o ser humano está em busca. Deseja vida em plenitude. O Santo Padre, Bento XVI, em 30 de novembro de 2007, nos entregou uma carta que tem esse título “Spe Salvi”, expressão tirada de Paulo que afirmou: “fomos salvos na esperança”(Rom 8,24). Aquela esperança radical que impele todo ser humano na direção do futuro foi salva, porque Cristo, tendo vivido até o extremo a condição humana, ressuscitou dos mortos. Ou seja, a fé em Cristo nos comunica a certeza de um desfecho feliz para nossa vida, para a história humana como um todo. Esse desfecho é dom de Deus bem como essa fé, fundamento da esperança. A Epístola aos Hebreus, citada pelo Santo Padre assim define a fé: “substância das coisas que se esperam; a prova das coisas que não se vêem” (Heb 11,1). Pela fé já temos dentro de nós o germe da vida futura, a prova-experiência sobre o que ainda não vemos. A esperança humana cai no vazio se Deus não existe. Aqueles que, com sinceridade, se reconhecem como seres-esperança e reconhecem que não são eles mesmos, nem o mundo, nem o progresso humano, a resposta para a própria busca, estão muito perto da fé. Nossa consumação e a consumação da história se darão no além-morte, como resposta de Deus à nossa súplica e à nossa fidelidade. Passa a figura desse mundo. A história pessoal e coletiva do ser humano tem um fim e deverá ser uma páscoa, ação de Deus que transfere para a plenitude da comunhão com Ele, com os outros e com o próprio universo, todos aqueles que o buscaram com sinceridade de coração. Acabamos de celebrar a paixão, morte e ressurreição de Jesus. A liturgia cristã com o Novo Testamento reconhece na descrição do Servo de javé de Isaias a figura de Cristo: “Eram na verdade os nossos sofrimentos que Ele carregava, eram nossas dores que levava às costas”(cf. Is 52,13 – 53-12). Aquele que ressuscitou é Aquele mesmo que deu a vida por nós. N’Éle está nossa salvação: a esperança que avança para dentro da eternidade. “Se temos esperança em Cristo tão somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens. Não, porém! Cristo ressuscitou dos mortos primícias dos que adormeceram”(II Cor 15,19-20).

Dom Eduardo

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