Uma carta sobre as cartas

Caro leitor,

Como vai? Aqui, e comigo, vai tudo bem...

“Venho por meio destas mal traçadas linhas” recordar do tempo em que escrevíamos, mandávamos e recebíamos cartas. Você se lembra do papel de carta, às vezes timbrado? E da letra mais esmerada ou da velha máquina de escrever (9 em cada 10 eram Olivetti); ambas, respectivamente, exigindo curso de caligrafia e datilografia?

Você se lembra de, primeiro, escrever um rascunho e, depois, com as palavras mais bem refletidas, colocar tudo em um texto definitivo e, então, por fim, dobrar as folhas e depositá-las dentro do envelope? E dos selos, vendidos em unidades, em cartelas e por tipo de porte? Por falar em selos, muitos de nós (eu sou um destes) os colecionávamos... (nas cartas, abundavam as reticências)

Nós escrevíamos para saber de tudo e de todos. Cartas familiares, cartas profissionais, cartas amorosas, cartas de apresentação, cartas anônimas... Nossa vida fluía pelo lápis, pela caneta, pelas teclas, pela fita de tinta, pelo papel. O texto era mais concreto. Aliás, a bem da verdade, nós mesmos erámos mais concretos. Concorda? Zygmunt Bauman concordaria.

A etapa seguinte era levar o envelope aos Correios, postá-lo ao destinatário e, como remetentes que éramos, esperar uma resposta que envolveria, do outro lado do CEP, o mesmo processo de escrita e envio. Muitos dias ou muitas semanas depois, era outro ser humano, o carteiro (herdeiro de Hermes, o deus grego, e dos Thurn e Taxis, a família alemã que popularizou os serviços postais), quem trazia a resposta.

O computador tornou o texto um “cadinho” mais abstrato. E o celular, então? As palavras ainda se formam na simbiose misteriosa que pensamentos e sentimentos fazem jorrar através das nossas mãos [digitando...]. No entanto, hoje estamos fisicamente mais distantes daquilo que nós mesmos escrevemos e lemos. Aliás, com o Microsoft Word, com o e-mail (cujo símbolo maior, ao menos nas logos, persiste sendo um envelope) e com os aplicativos de mensagem, estamos também mais impulsivos: não temos que postar nos Correios, não temos que aguardar burocracia estatal alguma, nada de nada, etc, etc, etc. É tudo instantâneo, mais rápido que as asas nos pés do supracitado ocupante do Olimpo.

Será que podemos dizer que os emojis substituíram implicitamente as frases explícitas de estados emocionais? Será que as figurinhas e os gif’s são os novos selos para os quais olhamos admirados pelas cores efusivas e desenhos criativos e que, salvando como memes, colecionamos e catalogamos ao “adicionar às favoritas”? O quanto os atuais substitutos (online) da comunicação escrita não são, de certa forma, uma readequação das antigas tradições (offline)? Dos tabletes sumérios, feitos de argila, com suas escritas cuneiformes, aos tablets high tech, feitos de plástico e tântalo, com suas escritas multiformes, suspeito que pouca coisa tenha mudado na forma mas muita tenha mudado no conteúdo...

Bom, querido leitor, era isto. Abraços a todos aí.

Com os melhores cumprimentos,

Do seu sempre amigo,

D.

P.S. “Vide verso, meu endereço.”

Autor

Dayher Giménez
Advogado e Professor