Tudo em cima da hora
Há um traço recorrente no comportamento do cidadão brasileiro que se repete em diferentes esferas da vida cotidiana: a tendência de deixar tudo para a última hora. Seja no pagamento de contas, na entrega de documentos ou na regularização de obrigações legais, como o título de eleitor, muitos optam por adiar o que poderia ser resolvido com antecedência e tranquilidade. Mesmo diante de campanhas informativas, avisos e prazos amplamente divulgados, a resposta costuma ser a mesma: uma corrida de última hora, marcada por filas extensas, sistemas sobrecarregados e, muitas vezes, estresse desnecessário. No caso do cartório eleitoral, o cenário não é diferente. Há meses as autoridades alertam sobre a importância de regularizar a situação eleitoral ou emitir o primeiro título dentro do prazo, que termina no dia 6 de maio. Ainda assim, a expectativa é de que os dias finais concentrem grande volume de atendimentos. Essa cultura do adiamento pode ser explicada por diferentes fatores. Em parte, está relacionada à falsa sensação de que “ainda há tempo”, o que leva à procrastinação. Em outros casos, há uma priorização de demandas imediatas em detrimento de obrigações que parecem distantes ou pouco urgentes — até que se tornem inevitáveis. Soma-se a isso uma certa tolerância ao desconforto: enfrentar filas longas e perda de tempo acaba sendo visto como algo quase natural, quando, na verdade, poderia ser facilmente evitado. O problema é que essa postura não gera prejuízos apenas individuais. A concentração de atendimentos nos últimos dias compromete a qualidade do serviço, sobrecarrega servidores e dificulta o acesso de quem realmente não teve alternativa a não ser deixar para o fim. Trata-se, portanto, de uma questão que envolve também responsabilidade coletiva. Mudar esse padrão exige mais do que campanhas informativas. Passa por uma mudança de mentalidade, pela valorização do planejamento e pelo entendimento de que antecipar tarefas não é apenas uma questão de organização pessoal, mas também de respeito a si próprio e aos outros. Enquanto isso não ocorre, o país seguirá assistindo, repetidamente, ao mesmo roteiro de prazos esgotando e filas que poderiam não existir.
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