Trump, xerife do mundo, versus Maduro, pequeno ditador
Mede-se deontologicamente a moralidade de um ato quando se o faz por princípios estabelecidos. Se julgamos o ato por seus efeitos, atendemos à teoria ética consequencialista.
Outra preocupação ética é a escala de valor. O que vale mais? Quando dois valores são relevantes entram em rota de colisão, dizemos que há conflito de valores. É o caso da captura de Maduro.
Sou contra um autonomeado xerife do mundo invadindo países. Não sou, contudo, menos contra um ditador que se perpetua no poder fraudando resultados eleitorais, prendendo opositores etc.
Há valores relevantes sendo atropelados em ambas as hipóteses. Não defendo uma situação em detrimento da outra. Deontologicamente, Trump desconsiderou normas internacionais postas.
Valorativamente, considerando acordos internacionais, Maduro desprezava razões democráticas relevantes para o mundo ocidental. Toda e qualquer ditadura é um atentado ao processo civilizatório.
Não há preceito ético que sustente Trump ou Maduro. Dado que se trata de fato consumado, alguma consideração moral sobre a derrubada do ditador pelo xerife deve levar em conta o que vem.
Quando os todos meios são ruins, a questão ética que resta é o devir. Visto o desfecho, não importará tanto que o sujeito errado haja sido derrubado pelas mãos erradas. Também há ética no depois.
Seja, os meios de Trump e de Maduro são ruins. Agora, lamentados os meios, resta-nos conferir o desfecho: se tudo for mero interesse de negócios, seria triste. Se disso restar democracia, menos mal.
Léo Rosa de Andrade
Escritor, professor, psicanalista e jornalista
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