Troco desviado

Seguindo meu hábito matinal passei de uma padaria para buscar meus dois pãezinhos.

Fui para o caixa, para fazer o pagamento, sempre seguindo o ritual, pago primeiro, recebo o troco e volto para pegar o pão no balcão, tão automático que tenho medo de um dia me esquecer do pão após o pagamento, ou pegar uma sacola errada.

Enquanto aguardava no caixa reparei que havia no balcão um pequeno cofrinho para moedas, que seriam direcionadas para o hospital do câncer de minha cidade. Sempre esteve ali, mas nunca o havia olhado demoradamente.

Lembrei, naqueles breves segundos, da importância nacional da instituição e do quanto aqueles pequenos gestos poderiam ajudar a milhares de pessoas, e resolvi que as moedas recebidas como troco, a partir daquele dia, seriam ali colocadas.

Seria o mínimo a se fazer para um trabalho tão grandioso e socialmente útil.

Eis que chega a minha vez, confiro o valor, dou uma nota maior, esperando o troco ansiosamente, para começar aquela pequena e tão relevante contribuição.

Mas, para minha surpresa, a menina do caixa, simplesmente, abriu o fundo desse cofrinho e tirou as moedas de lá para me dar o troco. Fiquei abismado, em choque, travado, talvez por segundos, ou por mais de um minuto. Quem sabe?

Aquelas moedas jamais chegariam ao seu destino. Se com a ajuda da sociedade uma instituição desse tamanho já encontra dificuldades, imagina sem tal apoio?

Era como se meu mundo desabasse, minha esperança ou minha fé na humanidade fosse quebrada.

Não digo que houve maldade da atendente do caixa, que talvez nem entenda o que é aquela caixinha, que sempre esteve ali. Ou talvez por ser um hábito que lhe fora ensinado com total naturalidade.

Mesmo assim, naquele momento parecia que eu estava em um mundo que eu não conhecia, embora eu saiba da existência de tantas corrupções, desvios e ilegalidades que acontecem em todos os setores da sociedade.

Aquele desvio das preciosas moedas, que deveriam chegar àquela causa, me marcou mais do que uma corrupção milionária.

Tive que vir embora com as moedas no bolso, sentindo-as mais pesadas do que deveriam, parecendo que eu era uma testemunha calada de uma grande conspiração ou de uma mera e insignificante situação, restando-me aceitar e começar normalmente o meu dia.

Autor

Evandro Oliveira Tinti
Advogado, mestre em Direito e professor de Direito do Trabalho