Trocar escolas por asilos

O envelhecimento acelerado da população brasileira impõe ao país um desafio estrutural que vai muito além dos números. Trata-se de uma transformação profunda que exige a quebra de paradigmas históricos, especialmente aqueles que ainda associam velhice à dependência, improdutividade ou invisibilidade social. Em um cenário em que a parcela de pessoas com mais de 60 anos cresce de forma consistente, torna-se urgente revisar valores culturais, práticas institucionais e prioridades do poder público. Do ponto de vista cultural, é necessário promover uma mudança de mentalidade. O envelhecimento precisa ser compreendido como uma etapa ativa da vida, marcada por potenciais econômico, social e intelectual. Isso implica combater o etarismo, ainda presente no mercado de trabalho e nas relações sociais, e valorizar a experiência acumulada dessa parcela da população. Incentivar a permanência de pessoas mais velhas em atividades produtivas, quando desejado, e ampliar oportunidades de educação continuada são caminhos importantes. No campo das políticas públicas, o desafio é ainda mais evidente. O modelo atual, em grande parte, foi desenhado para uma população mais jovem e em expansão. Com a inversão dessa lógica, será indispensável fortalecer sistemas de saúde voltados ao cuidado de doenças crônicas, ampliar a rede de atenção básica e investir em serviços de longa permanência e cuidados domiciliares. Em outras palavras, trocar escolas por asilos. A previdência social também continuará no centro do debate, exigindo equilíbrio entre sustentabilidade fiscal e proteção social. Além disso, as cidades precisarão se adaptar. Mobilidade urbana, acessibilidade, moradia e segurança devem considerar as limitações e necessidades de uma população mais envelhecida. Espaços públicos inclusivos e políticas de convivência intergeracional podem contribuir para uma sociedade mais equilibrada. Ignorar essa transição demográfica significa ampliar desigualdades e pressionar ainda mais os sistemas públicos. Por outro lado, encará-la com planejamento e inovação pode abrir oportunidades para o desenvolvimento de uma economia voltada à longevidade. O Brasil envelhece — e a forma como responderá a esse fenômeno definirá, em grande medida, seu futuro social e econômico.

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Da Redação
Direto da redação do Jornal O Regional.