Tetelestai (Está consumado!)

A referência τετέλεσται, no grego, possui sentidos amplos, ao significar “está consumado”, “está pago” e “está completo”. A ênfase ao intervalo compreendido entre a culminância e o desfecho carrega especificidades materiais e espirituais em plena missão histórica. Em que medida matéria e espírito circunscrevem a história dos homens? A resposta estará nos desdobramentos subjetivos, que produzem idiossincrasias a ritos fenomênicos. Pequenas conversas, atos de solidariedade e aconselhamentos podem exemplificar a sintonia relacionada com o idealismo cristão e proporcionar objetivos transcendentais. O ideário “tetelestai” expressa o impacto da convergência de vida e morte conciliáveis, na perspectiva de singularidade.

O Livro de Lamentações de Jeremias (587 a.C.), no capítulo 3, apresenta o ideário “tetelestai”, ao elucidar a imagem de Cristo, por meio de um pretérito, que será futuro. O contexto da invasão babilônica a Jerusalém provocou dores e lamentos ao eu lírico, de sorte que Jeremias conotou a figura messiânica, à luz das lágrimas. “Fui feito um objeto de escárnio para todo o meu povo”. Acentuadamente associativo, a assertiva expressional configura-se as peripécias contra a honra, prefigurando as zombarias contra Jesus, desde a prisão até a crucificação. Lamentações, ainda, incrustam o vocativo ascendente. “O ungido do Senhor foi preso. Está consumado”. Advém o intenso rito do programa cristão, no qual o sacrifício antecedido já fora bem-sucedido.

Uma inspeção cristã diz respeito à empiria, que fundamenta o caráter de já ver consumado as intenções elucubradas, por meio do pathos passional, a arte do sofrimento diante do ideal. O Livro do Profeta Isaías (740 a 701 a.C.) premeditou – “o mais rejeitado entre os homens, homem de dores e sabe o que é padecer”. Os impasses históricos expressam a ressonância transcendental, irradiada pelo grotesco social, pois a figuratividade humana conviveu com as indiferenças – “como um de quem os homens escondem o rosto”. Delineia-se, também, a desrealização de pertencimento social, ou seja, o desprezo grandioso dos homens, embora este sobrepujado pela ambição (o amor) do Messias. Longino (séc. I d.C.) disse que “o sublime é o eco da grandeza interior”, logo a essência espiritual centraliza o ser.

Com o desenvolvimento da expressividade corporal, os alicerces estéticos tendem a banir a beleza terrena, conforme destacou o Profeta Isaías: “Não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos”. Os conceitos estéticos criam um espetáculo empírico, no sentido de imprimir duas identidades ao público – espectador e expectador. O indivíduo espectador contempla a história, eventualmente, e aguarda ansioso pelo desfecho; ao passo que o sujeito expectador está consciente a respeito dos fatos e já contempla o desenredo. A obscuridade, na culminância, harmonizou a fala do público diante de Pilatos: “Qual dos dois vocês querem que eu solte? Responderam eles: ‘Barrabás!’”. A escolha a Barrabás reflete a consumação do próprio povo.

Talvez, a consumação mais sólida esteja na concepção da anterioridade das circunstâncias, nas quais vida e morte disseminam não só a ideia de começo e fim, mas de presença temporária dentro da eterna. A experiência de “tetelestai” (está consumado) constata que as ambições neutralizam a dinâmica circunstancial dos homens, para que se possa triunfar sobre os fenômenos espirituais. Mais do que isso, “tetelestai” emite a decisão oriunda do sociocomportamento, pelos referenciais ideológicos. A imagem de Cristo, nas passagens do Antigo Testamento, fora consumada antes das recorrências de tempo e espaço. Zacarias (520 e 518 a.C.), o penúltimo Livro do Velho Testamento, predisse: “E se alguém lhe disser: Que feridas são estas nas tuas mãos? Dirá ele: São feridas com que fui ferido em casa dos meus amigos”.

Imagem: Cena do Filme “Paixão de Cristo” (2004), de Mel Gibson.

Autor

Prof. Dr. John David Peliceri da Silva
Formado em Letras, em Direito e Pedagogia. Mestre, Doutor e Pós-doutorando em Letras pela Unesp. Atua como Supervisor Educacional na Secretaria Municipal de Educação de Catanduva.