Tempos sem Elegância

Muitas vezes entendida de modo simplificado, como uma maneira de saber vestir-se ou comportar-se à mesa, a elegância é algo que não se trata de uma futilidade, sendo um equívoco desastroso pensar que seja algo fútil, que coloca a pessoa elegante longe de uma delicadeza natural, sem ser amável, uma atitude tão necessária à convivência humana.

A palavra elegância é um substantivo feminino "graça", e trata-se de uma distinção na forma e maneira de ser, é a arte de escolher as palavras, de saber quando falar e calar, demonstrando requinte, bom gosto, um modo sábio e sutil de se portar e agir, tendo estilo sem afetação, esmero com precisão. É adquirir um conjunto de bons hábitos que revelam uma civilidade harmoniosa por dentro e por fora, de dentro para fora.

É agir com cortesia, empatia, gentileza, cuidado, educação e discrição. É descobrir o quanto é vulgar falar mal dos outros, da maneira como o outro é ou se veste, do quanto é vulgar participar de fofocas, fazer discursos inflamados sobre política e religião, assediar sem consentimento, cortejar e depois não sustentar o cortejo, criticar mais que elogiar, fazer diferença entre as pessoas, exagerar na vontade de aparecer e na obscenidade.

Por elegância também podemos entender alguém que não deixa o outro se sentir menos, abrindo espaço para que o outro possa ser e ter sua personalidade engajada, exatamente porque ao ser elegante, deixa o outro que é diferente bem à vontade.

Totem e Tabu foi a princípio uma leitura endereçada aos antropólogos em que Freud buscava analisar a gênese dos totens, símbolos sagrados, e dos tabus, proibições de origem incerta que cercavam a liberdade individual e coletiva de uma determinada sociedade.

Este texto é muito importante porque fala da teoria dos povos, do modelo de cultura, e busca analisar como passamos para o estado de vida social buscando compreender entre outros aspectos a hostilidade diante das relações, e serve como reflexão para compreendermos a origem de muitas vezes nos comportarmos de forma a nos assustarmos com a nossa própria maneira e capacidade de ser e agir. Freud neste texto desdobra também a ideia do horror diante de atitudes proibidas onde ele observa regras incongruentes diante da ambivalência, mostrando que ao mesmo tempo que amamos podemos odiar.

Trata-se de um texto sobre humanização, uma edição mítica que é reeditada por cada um de nós no momento edipiano, momento este que temos que lidar com nossas hostilidades, com nossa condição de sujeitos humanos e simbólicos, que temos que nos reescrever num mundo social com regras, e que a partir do bom ou mau uso delas, dizemos quem somos e o que pretendemos.

O homem sempre buscou formas em que possa tornar compreensível suas vivências, tendo os mitos, as religiões e a ciência como representantes de alteridade na forma como ele organiza e fornece o sentido de compreensão à experiência humana, e na relação entre o eu e o outro, reconhece neste modo de ser o primeiro passo para a formação de uma sociedade justa, equilibrada, democrática, tolerante, onde todos possam se expressar de forma a acrescentar, respeitando e sendo respeitado sobretudo nas diferenças.

Um indivíduo elegante deve saber o que se passa no mundo das artes, da literatura, da música, dos espetáculos, das viagens, da gastronomia, para assim saber-se diante de si e do outro, mas nunca para hostilizar a falta de conhecimento ou escolha do outro, até porque, talvez o outro não saiba porque não teve acesso, e nunca porque não quis.

Estamos vivendo "tempos sem elegância", o tempo do olho por olho, sem espaço para a manutenção de uma convivência civilizada entre os povos, entre as classes, sem tempo para pensarmos o outro, para nos comportarmos diante dele com clareza e respeito onde a elegância encontra-se identificada num comportamento deturpado diante daquilo que não deveríamos ser diante de nós e do outro.

A elegância não é esnobismo ou arrogância: é antes de tudo saber ser simples e sábio perante a vida, capaz de deixar o outro confortável sendo ele quem for.

Elegância é a sutil arte de saber combinar simplicidade, educação e discrição. Viva a sutileza da simplicidade, a singela elegância.

Música, “Moonglow" com Tony Bennett, k.d. lang.

Autor

Claudia Zogheib
Psicóloga clínica, psicanalista, especialista pela USP, atende presencialmente e online. Redes sociais e sites: @claudiazogheib, @augurihumanamente, @cinemaeartenodivã, www.claudiazogheib.com.br e www.augurihumanamente.com.br | Foto: Renato F. de Araujo @renatorock1 ©