Sujeito sem autorreferência e a necessidade de manifestação

A arte literária identifica a humanidade e o espaço em que vive, porquanto almeja vertentes de representação. Relacionamentos, crenças e sonhos dizem a perspectiva de consagrar a lacuna, que pretende mover a vida: da relação à realização. Convém destacar que as paixões necessitam de artefatos, a fim de os prazeres serem dizíveis à expressividade terrena. No plano sentimental, os sujeitos extasiados acrescentam uma doutrina humanista, sob ignorância à doutrina teológica e procurando subsídio material, com o objetivo de conectar a fé individual. Daí o âmbito onírico confessar a centralidade do homem, de sorte que a autorreferenciação sucumbe, seguida, ou não, de manifestações.

Em 1995, Chico César lançou a canção “Templo”, na qual a imagem do eu lírico encontra-se despida: “Esse homem nu sou eu”. É esse estado que sugere a visão maior centrada no corpo humano e na produtividade identitária. “Inca, Maia, Pigmeu. Minha tribo me perdeu, quando entrei no templo da paixão”. Além de expor as identidades gentílicas, o eu poético está vulnerável ao cruzamento fronteiriço – a participação entre culturas conota as entregas de si frente às relações coloniais. A partir da renúncia tribal, o sujeito passa por caminhos ritualísticos, já que o templo (cisão) amplia as vivências individuais. A paixão prefigura a presença colonial no pulso emocional e mitológico.

Nos mitos mesoamericanos, a divindade Quetzalcoatl, venerada pelos Maias e Astecas, é caracterizada como uma “serpente emplumada” (deus do vento e do juízo). 1 Acatl, no calendário indígena, prefigurou o ano nefasto, ou seja, possíveis mistérios na cidade de Tenochtitlan. Era comum a manifestação divina, cujo objetivo era instaurar novos tempos, além de exigir construtos. O imperador Montezuma, ao observar a chegada dos espanhóis, ponderou: “Quetzalcoatl, a Serpente Emplumada, estaria de volta, como havia prometido muito tempo atrás?”. Compreende-se que a epifania maldita traria fim à civilização, haja vista que Quetzalcoatl era contrário a sacrifícios humanos.

Machado de Assis (1881), em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, o defunto-autor declara que foi restituído à figura humana – “vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou”. O hipopótamo, também, aparece na narração do Livro de Jó: “Contemplas agora o beemote, que eu fiz contigo”. A presença animalesca expressa as necessidades dos sujeitos sociais, porque buscam a razão da existência, por meio das tarefas oníricas. De repente, a performance sofre modificação: “O hipopótamo [...] começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato”. A imagem tridimensional foi reduzida e turvada pelo nevoeiro discursivo, em razão de legitimar as tríades: “corpo, alma e espírito”, “gostar, amar e apaixonar”, “o eu, o outro e o nós” etc.

No conjunto das redes interpretativas, os relacionamentos humanos partem das emoções provocadas pela presença do “outro”, cuja consequência assume a pluralidade cerimonial. O cruzamento fronteiriço alude às referências passionais, visto que o rito socioemocional conduz à canonização imagética – os objetos (flores, cartões etc) consagram circunstâncias românticas. Há a necessidade de as crenças estarem paralelas às paixões, pois o ato de fé recupera a passionalidade e/ou elucida esta, por intermédio do fim–começo. Os vaticínios conectam a projeção trina “corpo (pretérito), alma (presente) e espírito (futuro)” e expõem que a centralidade não está no homem. O sujeito onírico, sem autorreferência, recorre à presença divinal, a partir de histórias canonizadas, ou seja, o caminho à epifania está na volta ao homem.

Imagem: Quetzalcoatl, deus do Sol e dos ventos

Autor

Prof. Dr. John David Peliceri da Silva
Formado em Letras, em Direito e Pedagogia. Mestre, Doutor e Pós-doutorando em Letras pela Unesp. Atua como Supervisor Educacional na Secretaria Municipal de Educação de Catanduva.