Sujeito olhante – a cegueira na visão
Charles Baudelaire lançou, em 25 de junho de 1857, o Livro “As Flores do Mal”, que marcou a poesia moderna e simbolista na França. Entre as poesias, o Poema “Os Cegos” (1857) possui uma leitura além de seu tempo, haja vista a necessidade da pluralidade óptica a respeito da apreensão. O olhar orientado pela visão alheia, na qual um conjunto de signos norteia o direcionamento ideológico e condiciona o sujeito às práticas sociais. Trata-se de julgamento acerca da visão preponderante.
A metáfora da cegueira sugere identidades altissonantes – “Iguais aos manequins, grotescos, singulares”. A comparação aos manequins expõe a ausência de vida, porquanto os cidadãos caminham sem destoar das propostas burguesas e enaltecem os clichês, que condicionam experiências a referências mecânicas. A produtividade tornou-se grotesca, em razão de os sujeitos urbanos não pertencerem à classe burguesa e terem desenvolvido comportamentos irregulares ao meio social.
Esses comportamentos irregulares provam que o indivíduo está exilado da própria natureza, porquanto não faz parte da burguesia nem desenvolve a luta da classe popular. Nesse aspecto, a cegueira delineia uma superestrutura literária: condutas destoantes à natureza, falta de compreensão, estar perdido, não querer sair de certas circunstâncias etc. Esses incidentes intensificam o método cronotópico (tempo e espaço), uma vez que podem inverter o estado – “para dar visão aos cegos e para fazer os que veem se tornarem cegos”. Da visão à cegueira.
Na sequência do poema baudelaireano, o poeta identifica os cegos como “sonâmbulos talvez, terríveis se os olhares”. A imagem mórbida parece denunciar a crise de representação – ainda que os cegos olhem para o céu, não há a presença de luz. O estado de sonambulismo é crucial, porque permite o paciente gesticular em plena falta de consciência. Zé Ramalho, na Canção “Admirável Gado Novo” (1979), ressaltou: “O povo foge da ignorância, apesar de viver tão perto dela”, em uma tentativa de despertar as pessoas a possíveis questionamentos.
A partir desse prisma, os cegos possuem crenças, embora a noite ilimitada atue como produto da desumanização terrena. Baudelaire, ao mencionar a cegueira, entrega artimanhas poéticas, pelo intermédio da ausência ideológica. Diante disso, “cantas, ris, uivas ao léu”, ou seja, o indivíduo não enxerga, como ocorreu no Mito de Édipo: o personagem fica cego, e a cidade ganha símbolo da Esfinge – ela aprisiona e é atraente. A cegueira passa a ser tragédia operante e um mistério.
O poema, antes de terminar com uma indagação, capta a cegueira, em câmera lenta – “Olha! Também me arrasto! E, mais do que eles, pasmo”. O eu lírico anda pela cidade e está perdido nela, pois está diante do sublime (mistério, o inacessível), cuja visão é metáfora do pensamento elitizado. “Digo: que buscam estes cegos ver no Céu?”. Quando um indivíduo não está disposto à aprendizagem, torna-se “cego guiando outro, ambos cairão na cova” da ignorância atuante – o sujeito olhante em uma cegueira em plena visão. Que olhos ideológicos sejam abertos!
Imagem: A Parábola dos Cegos (1568), de Pieter Brueghel
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