Sonho acalentado durante gerações
A iniciativa da Coordenadoria Municipal de Habitação de iniciar levantamento para regularizar áreas antigas da cidade é, sem dúvida, notícia que merece celebração. Garantir a escritura de um imóvel é, para muitas famílias que vivem em situação de posse precária, a concretização de um sonho acalentado por gerações. A segurança jurídica que a regularização fundiária confere transforma uma moradia vulnerável em um patrimônio sólido, permitindo que essas famílias planejem o futuro com a certeza de que seu lar não será objeto de disputa ou remoção arbitrária. É um avanço social significativo que traz dignidade e estabilidade. Entretanto, este ato de justiça, embora louvável, carrega consigo um ponto de controvérsia que não pode ser ignorado: o fato de o poder público precisar realizar uma força-tarefa para descobrir onde estão seus cidadãos sem documentação. Onde estavam os registros cadastrais? Por que a informação fundamental sobre a posse da terra, base para o planejamento urbano e a prestação de serviços, não estava em mãos da administração municipal desde sempre? A necessidade de um levantamento exaustivo como este é a prova inconteste de uma falha administrativa histórica. A ausência de um mapeamento preciso e atualizado não é um mero detalhe burocrático; é um obstáculo que impede o pleno exercício da cidadania e o acesso a direitos básicos. Que a alegria das famílias que poderão receber suas escrituras num futuro próximo não ofusque a lição aprendida: a inércia administrativa custa caro, em tempo e em segurança social. A lição para o futuro é clara: a administração pública deve operar com proatividade e precisão cartográfica. A regularização não deve ser uma exceção emergencial, mas sim a regra da boa governança, garantindo que o direito à moradia segura seja um fato consolidado, e não um sonho adiado por décadas.
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