Serve para alguma coisa?

Vivemos uma situação muito especial na história da humanidade: nunca se teve tanto acesso às informações. Acompanham este fato outros dados interessantes: os jovens da atualidade estudam mais horas do que qualquer outra geração precedente. Na média, ingressam no mercado de trabalho bem mais qualificados do que seus pais. No entanto, ocorre que no mundo todo, no Brasil em especial, os jovens não estão mais preparados para as ofertas e demandas do mercado de trabalho. 

A OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), após análise de 20 anos do PISA (Programa para Avaliação Internacional de Estudantes) fez um estudo com 500 mil jovens sobre o emprego dos sonhos e concluiu que 47% dos meninos e 53% das meninas de 41 países continuam a escolher apenas 10 opções de carreiras, a maioria delas ofícios populares e tradicionais. Ignoram novos tipos de trabalho, notadamente os ligados ao mundo digital. No Brasil, estes índices chegam a 66% dos meninos e 75% das meninas. 

No estudo, as mais preferidas pelos meninos são pela ordem: engenheiro, gerente de negócios (o equivalente no Brasil a administração de empresas), médico, profissional de TI (tecnologia da informação), atleta, professor, policial, mecânico de automóveis, advogado e arquiteto. A lista permanece a mesma de 20 anos atrás, só mudou a ordem de preferência. Entre as meninas, as profissões mais assinaladas são as de médica, professora, gerente de negócios, advogada, enfermeira, psicóloga, designer, veterinária, policial e arquiteta. Em 20 anos, a lista mudou e a ordem de preferência também. Saíram da lista das meninas jornalista, secretária e cabeleireira e entraram policial, designer e arquiteta. 

A maior parte das profissões listadas foi criada no século 20 ou até antes. Parece-me que os sinais das transformações do mundo e do mercado de trabalho não estão alcançando os jovens. Nem as instituições de ensino. 50% das profissões assinaladas pelos jovens ou serão extintas ou sofrerão intenso processo de automatização nos próximos 10 a 15 anos. Mesmo profissões que não serão extintas estarão expostas a este fenômeno. Posso falar da medicina. A inteligência artificial avança em todas as especialidades. 

Existe um enorme conflito entre o que a sociedade e a economia precisam e o que a educação oferece. Há uma fratura entre as escolas, a percepção dos jovens e o mundo do trabalho. Exige-se dos jovens não apenas uma boa formação acadêmica, mas também curiosidade, imaginação, empatia, empreendedorismo e capacidade de suportar pressões e adversidades. Estamos criando jovens assim? Quem se forma tem condições de trabalhar imediatamente? Se a resposta for negativa, tem alguma coisa errada com o sistema educacional. Fica a reflexão: para que serve o que se ensina nas escolas? 

 

Autor

Toufic Anbar Neto
Médico, cirurgião geral, diretor da Faceres. Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura. É articulista de O Regional.