Saudade e solidão, um redimensionamento do 'ser' e 'estar'
A relação de causa e consequência expressa um conflito existencial, pois a perda/ausência lida com os efeitos da saudade, que podem gerar a solidão. A forma, com que a solidão se perfaz, perturba a linguagem poética. Em 1986, a Cantora Sandra de Sá lançou a música “Solidão”, na qual a arte utiliza a personificação, a fim de propor um diálogo na tessitura do monólogo. O vocativo “Solidão”, reiterado nos versos da canção, entrega o desabafo do emissor apaixonado. “Solidão, dá um tempo e vá saindo” – as ordens parecem propor um divisor de águas entre presente-pretérito (estado solitário) e pretérito-futuro (amor concretizado). “Solidão, meu amor está voltando”.
Em particular, a saudade do presente surpreende pela concepção de solidão – “A solidão é nada”. O “nada” reflete a crise de encantamento e a falência das crenças, por meio dos estados de ausência. A ênfase à solidão, também, é latente na canção “Tudo que vai” (2000), da Banda Capital Inicial. Em “Eu fico à vontade com sua ausência”, há a saudade permanente de estar livre. “Tudo que vai deixa o gosto, deixa as fotos”, ou seja, os efeitos do passado, que podem sugerir memórias. A personificação tinge um mosaico de recordações – “Seu rosto em pedaços misturando com o que não sobrou” – e a incongruência entre objetos e novidades lembra o pretérito e vive a atualidade.
Pode-se dizer que o movimento é retrógado, na saudade de épocas, e desdobra-se na disseminação do “nada”, no trecho da música: “Quanto tempo. Eu já nem sei mais o que é meu, nem quando, nem onde”. Euforia da negação evidencia um vácuo nos limites da expressão, pois a história pessoal pesa sobre os ombros do eu lírico. O desamparo subjetivo considera interior (ser) e exterior (estar), uma vez que os sentimentos mórbidos embebem a consciência do ser. Posse, tempo e espaço são marcados pelo desencantamento reativo, porquanto os relatos memorialísticos ressaltam o desapego e esquecimento – “Eu nem me lembro mais”. O pronome “me” destaca a centralidade e solidão.
O Conto “O Espelho” (1882), de Machado de Assis, traz o personagem Jacobina relacionando solidão e saudade – “Minha solidão tomou proporções enormes”. A saudade de si mesmo “feria a alma interior”, visto que Jacobina perdeu o status social e desejava a antiga identidade – “era a solidão ainda mais estreita ou mais larga”. A forma da solidão eclode a gravidade e aproxima a imagem perdida em relação à atual, pois são meios expressivos de recriação. Não é à toa o nome do personagem “Jacobina” – já combina. Atentar-se ao passado é pavimentar os trajetos conscientes, com vistas ao desenvolvimento de personalidade. A fratura temporal predispõe atividades empíricas ao sujeito.
A fruição empírica do ser atuante singulariza o fenômeno da saudade, de conformidade com o estado de solidão. Esse estado grandioso torna-se companheirismo, que conduz o sujeito às artimanhas da memória e o impacto delas reativa ou retifica, no presente, os vestígios do pretérito. Na verdade, a solidão emula o grau mais eficaz dos atos de transcendência, ou seja, as experiências de arrebatamento individual. A saudade busca (re)conhecer os sentimentos mais profundos do “já vivido” e molda o comportamento do indivíduo na sociedade, já que saudade e solidão determinam o “ser” e o “estar”. Fernando Teixeira de Andrade dizia: “Enquanto não atravessarmos a dor de nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades”.
Imagem: No Portal da Eternidade (1890), de Vicent Van Gogh
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