São Paulo, uma relação contemplativa de nunca acabar

São Paulo foi tema de várias obras literárias, inclusive nas canções populares. O nome bíblico já carrega uma relação paradoxal, visto que “Paulo” significa “pequeno” em oposição a “Saulo”, que é “grande”. Sabe-se que a cidade possui espaços mínimos, que encantam a realidade e são simbolizados por imagens poéticas. Mário de Andrade, em “Paulicéia Desvairada” (1922), expôs a modernidade da cidade – “Estes homens de São Paulo, todos iguais e desiguais” – com uma vaidade peculiar durante o trânsito. O mito e a história parecem transcorrer identidades paulistanas, por meio de atos contemplativos.  

Anos mais tarde, Tom Zé venceu o “IV Festival de Música Popular Brasileira” (1968), com a Canção “São Paulo, meu amor”. O trânsito constante mostra as identidades no corpo em movimento: “que se agridem cortesmente, correndo a todo o vapor”. A visão sensível (do solo às alturas) estabelece a convivência em meio à velocidade pretensiosa, na qual a ética é um tecido social das ambições. “E amando com todo ódio, se odeiam com todo amor”. A ideia de grandiosidade une duas figuras de linguagem – paradoxo e hipérbole – demonstrando qualidades e defeitos do convívio e potência do espaço. O refrão da canção reitera “São, São Paulo, quanta dor. São, São Paulo, meu amor”, como apóstrofe, cuja função é instaurar um tributo, no Neobarroco.

A capital do Estado de São Paulo se torna palco do Neobarroco. “Salvai-nos por caridade, pecadoras invadiram todo o centro da cidade”. A canção faz crítica ao trânsito libidinoso, quando o movimento citadino atordoa a percepção do sujeito passeante, ou seja, o céu é o limite e o olhar leva ao Cristianismo. Tom Zé canta: “Um pregador que condena uma bomba por quinzena” fazendo referência às práticas hereges e denunciando as barbáries da época. O corpo a corpo atesta o antagonismo entre a libertinagem e a liberdade ao ideal.

Nos versos finais, o contemplador se vê absorvido pelo espaço arquitetônico – “Crescem flores de concreto, céu aberto ninguém vê”. O substantivo “flores” dá um epíteto a São Paulo: Selva de Pedra (utilizado como nome de uma novela de Janete Clair, em 1972). Essa sensação de conexão é evidenciada, também, nos versos drummondianos – “Mas o edifício barra-me a vista”. A aparição do concreto deslumbra o convívio humano na transitoriedade, pela ausência epifânica, uma vez que a própria cidade recebe aura – “porém, com todo o defeito, te carrego no meu peito”. Sentimento e concreto ganham vida, de sorte que a divina cidade fica enaltecida pela fragmentação espacial.

A pavimentação de São Paulo ganhou notoriedade em “Sampa” (1978), de Caetano Veloso. Os versos velosianos configuram um mistério: “Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João”. O ser citadino dilui a cidade de São Paulo dentro de si, como se a pavimentação fosse o próprio trânsito socioemocional. “Ipiranga” alude a rios (corrente), e “João” se refere à graça (amor), tendo em vista a vida humana em projeção. Entrar, estar e sair de São Paulo é uma tríade misteriosa, porque o trânsito citadino é permeado de novidades, que refletem nossa identidade. Já dizia Heráclito: “A água do rio não passa duas vezes no mesmo lugar”.

Imagem: São Paulo (1924), de Tarsila do Amaral

Autor

Prof. Dr. John David Peliceri da Silva
Formado em Letras, em Direito e Pedagogia. Mestre, Doutor e Pós-doutorando em Letras pela Unesp. Atua como Supervisor Educacional na Secretaria Municipal de Educação de Catanduva.