Ritos natalinos: o mistério na travessia
Os ritos natalinos mostram a grandeza, na necessidade de continuidade da travessia humana. Mário de Andrade, no Conto “Peru de Natal” (1942), inspirou-se na própria história, dando vida ao personagem Juca. O protagonista do conto decidiu realizar uma ceia natalina, diante do luto familiar pela ausência do patriarca. A morte do peru está associada à falta da presença do pai – o rito de passagem remete ao nascimento e possível morte de Jesus Cristo. O conto menciona “principalmente à natureza cinzenta de meu pai”, na qual peru e pai estão associados à ideia de chefe e ocupam a presença respeitosa no topo da árvore genealógica.
Se a árvore consagra a memória, também privilegia a existência frutífera. O personagem Juca afirma “que me nasceu, [...], espontaneamente, a ideia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". O método natalino presentifica ações corriqueiras, porém produtoras do caráter inexprimível: a espera pela meia-noite, abrir um panetone somente na Ceia de Natal, a entrega de presentes etc. A vida proporciona a arbitrariedade diversa, que é seguida de linearidade circunstancial. Nesse sentido, as lembranças produzirão (re)ações sucessíveis, com vistas a preencher a lacuna do acaso. A ceia da família de Juca era “reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo”.
Peru, pai e galo parecem enaltecer a função temporal, enquanto ato inexorável da vida humana, haja vista a função de origem e poderio da espécie. Juca, então, diz: “– Bom, no Natal, quero comer peru”. O rito natalino demonstra o luto atuante, por isso a confraternização familiar sugere a troca de uma lembrança melancolia pela realidade inovadora. O prato principal é entregue, agora, à matriarca da família. “– Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!”. A divisão dos pratos enseja o mistério da travessia, visto que pai e peru mortos estão presentes naquela ceia. “Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai”. A figura do animal sendo devorada (presente-futuro) e a do pai sendo lembrada (pretérito-presente).
“A imagem dele [pai] foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu”. A imagem paterna, símbolo da origem, não cessa de projetar circunstâncias e parte das recordações para prosseguir com as passagens da vida, quando o patriarca tornou-se uma estrela (corpo) e seu fulgor (história). Na verdade, “uma felicidade maiúscula, um amor de todos”, cuja abstração condiciona ludicidade ao espaço da habitação. Esse desregramento lembra os prazeres festivos vividos pelos reis e rainhas, ou seja, o nascimento implantando a morte do velho tempo. O mistério da travessia está no jogo das correspondências – a sabedoria é aprender a lidar com as perdas referenciais. Recorre-se às ambiguidades humorísticas, a fim de que o percurso histórico seja ressignificado pelo badalar da memória afetiva. Sem história, a vida seria um caos incessante!
Imagem: O Banquete de Gargantua (1848), de Gustave Doré
Autor