Resenhas Especiais - Nos Cinemas e Streamings - 10.12.25

One to One: John & Yoko

Documentário britânico original e com trechos inéditos e reveladores, exibido nos festivais de Veneza, Telluride e BFI London, e no Brasil no In-edit e Festival do Rio desse ano. A obra tem sentido pela assinatura do diretor, o britânico Kevin Macdonald, que dedicou a maior parte da vida em filmes ficcionais inspirados em fatos reais, como ‘O último rei da Escócia’ e ‘O mauritano’, e ultimamente se volta ao cinema que o lançou no início dos anos 90, o documentário – ele já biografou para o cinema e a TV uma dezena de personalidades, dentre eles os músicos Bob Marley, Whitney Houston e Mick Jagger e os diretores de cinema Howard Hawks e Errol Morris. Agora ele explora a relação pessoal e profissional de John Lennon e Yoko Ono, recortando um período específico, entre 1971 e 1972, após o fim dos Beatles e a mudança do casal de Londres para Nova York. É uma época de agitação popular, uma quase convulsão nas ruas com a contracultura e as manifestações pedindo o fim da Guerra do Vietnã, momento histórico que influenciar várias músicas de Lennon e Yoko. Foi em Nova York que o casal lançou um novo tipo de música, que marcaria a carreira de ambos e seria influência para outros. As canções falavam do amor dos dois, do ativismo social focado na paz do mundo, na liberdade sexual e na emancipação da mulher, além das mensagens contra a Guerra do Vietnã. Eles produziram um show memorável, ‘One to One Concert’, único realizado por Lennon após os Beatles com duas apresentações – uma diurna outra noturna, em que trajando jaqueta verde do exército cantou ‘Instant karma’, ‘Power to the people’ – que viraria símbolo da luta nas ruas, ‘Mother’, ‘Come together’ – que era dos Beatles, e as emblemáticas ‘Give peace a chance’ e ‘Imagine’. Ele e Yoko cantaram ao lado de amigos, como Stevie Wonder, no Madison Square Garden, para 40 mil pessoas, em 30 de agosto de 1972. O show se tornou beneficente com o montante de dinheiro doado para crianças com deficiência da instituição Willowbrook State School. No filme as imagens do show foram restauradas, e o doc é todo em cima de entrevistas e reportagens da época, sem nada de gravação atual. Dois antes do show Lennon e Yoko lançaram um álbum histórico juntos, que utilizaram como base para o concerto ‘One to One’, ‘Some time in New York City’. Ao longo do filme imagens históricas raras compõe a crítica embutida no documentário - dos protestos contra a Guerra do Vietnã pelas ruas de Nova York, a prisão de Lennon e Yoko por porte de maconha, a luta racial, a repressão policial e a polarização política. Um ótimo documentário para ser visto e revisitado.

 

Nos seus sonhos

Daquelas animações que emocionam e ao mesmo tempo divertem, o novo filme da Netflix é assinado por dois ex-Disney, Erik Benson e Alexander Woo, à frente de um dos primeiros longas do novo estúdio da produtora especializado em obras para crianças, a Netflix Animation. Com vozes de Craig Robinson, Cristin Milioti e Omid Djalili, o filme acaba de ser indicado ao Critics Choice na categoria de melhor animação e deve ser finalista ao Oscar do ano que vem. É uma aventura repleta de significados, dentro dos sonhos de criança. Stevie e o irmão Elliot são absorvidos para seus próprios sonhos com um propósito: encontrar-se com uma figura mítica que lembra o Papai Noel, chamado Sr. Sandman, um idoso de areia com longas barbas brancas, que vive num enorme castelo iluminado por uma forte luz brilhante. As crianças buscam uma família perfeita, já que a deles enfrenta problemas de relacionamento. Misturando uma estética de cores vibrantes com tons pasteis e minimalismo, a animação deverá agradar crianças, jovens e adultos – eu me joguei de cabeça torcendo pelos irmãos e refletindo a mensagem humana por trás daquela aventura mirim. A Netflix erra muito em filmes para adultos, mas acerta quase sempre nas animações infantis, e este é um bom exemplo.

 

Caso Eloá: Refém ao vivo

A Netflix encontrou um filão com os documentários de casos policiais chocantes. Só nestes últimos dois meses lançou três documentários em formato de filme que ficaram no top 5 de bilheteria do streaming: ‘A vizinha perfeita’, cotado para o Oscar, ‘Aileen: A História de uma serial killer’, e ‘Caso Eloá: Refém ao vivo’. O doc em questão traz de volta toda a angústia de um fato que paralisou o país e se tornou um estudo de sensacionalismo na mídia. É aquele de uma jovem chamada Eloá Pimentel, de 15 anos, que ficou em cárcere privado, no apartamento da família, sob a mira de um revólver do namorado, Lindemberg Alves. O sequestro, em Santo André (SP), durou quatro dias, entre 13 e 17 de outubro de 2008, terminando com a morte de Eloá. A repercussão invadiu as emissoras, que só transmitiram isto por dias, com momentos ao vivo e infinitas suítes. O doc resgata cenas de arquivo da TV, desde reportagens de jornalistas que cobriram o caso em frente ao apartamento da vítima até as panorâmicas feitas por helicóptero e as negociações com a polícia; dos dias atuais, traz depoimentos dos pais de Eloá, de policiais que atuaram na ocorrência, de familiares e amigos tanto dela quanto de Lindemberg (hoje preso na P2 de Tremembé em regime semiaberto, após condenação inicial de 98 anos por três crimes, dentre eles homicídio qualificado e cárcere privado). O filme critica a espetacularização da mídia a partir de questionamentos da equipe aos jornalistas que estiveram à frente da cobertura em 2008 - a falta de ética tomou conta sem o mínimo de respeito aos envolvidos, a ponto de alguns jornalistas chegarem a entrevistar ao vivo o sequestrador Lindemberg e Eloá dentro do cárcere. Um verdadeiro show de horrores em busca de audiência. Um bom filme da Netflix, porém uma pedrada, que volta a mexer com antigas feridas.

Autor

Felipe Brida
Jornalista e Crítico de Cinema. Professor de Comunicação e Artes no Imes, Fatec e Senac Catanduva