Resenhas Especiais - No Streaming - 03.12.25

Balada de um jogador

O grande lance do novo filme do diretor dos premiados no Oscar ‘Nada de novo no front’ (2022) e ‘Conclave’ (2024), o alemão Edward Berger, está na execução técnica – a edição é poderosa, a direção de arte e a fotografia, um primor, de tirar o chapéu. O roteiro, nem tanto, já que soa cansativo, pois acompanha três dias na vida de um azarado jogador de viciado em cassinos, Lord Doyle (Colin Farrell). Ele está hospedado num luxuosíssimo quarto de hotel em Macau, cercado por vinhos caros e dinheiro espalhado pelo chão. Ele acorda depois de uma bebedeira e depois também de perder muita grana em jogos. Não paga a conta da hospedagem há dias, valor que beira 400 mil dólares, e não abre mão dos bons champanhes, caviar e lagosta. Um aviso chega debaixo da porta, informando que ele tem três dias para quitar aquela dívida do hotel, senão a polícia será acionada. Doyle então corre contra o tempo para jogar mais e ganhar uma boa bolada nos cassinos da região. Ele mal dorme, acorda agoniado, sofre de taquicardia, até que uma mulher misteriosa, Blithe (Tilda Swinton – naqueles papeis excêntricos) ‘joga’ uma bomba em seu colo – ela traz uma proposta a Doyle para resolver algo mal esclarecido do seu passado, quando ele se envolveu num roubo milionário no Reino Unido. Com dívida do hotel e mais essa do roubo, Doyle se vê diante do abismo, tentando escapar da polícia e contando as horas para recuperar o dinheiro perdido. O público não gostou deste filme agitado e de pura correria, que mistura comédia nonsense com ação e suspense, de uma maneira que me conquistou – o filme se passa numa Macau eletrizante, com cores que fervem na tela, com direção de arte e fotografia estonteantes, como mencionei. Não fica claro se o protagonista está num sonho ou se tudo é real, e esta dúvida fica ainda mais difícil de entender da metade para frente do filme. É sim uma alegoria que parece fantasia, um pesadelo na cabeça do personagem aloprado e mal resolvido, como se aqueles fossem as últimas horas de sua existência. O filme se passa no feriado do Dia dos Fantasmas Famintos, uma celebração milenar chinesa com rituais de oferendas para os espíritos – o feriado dos mortos e os últimos dias do personagem lembram um ‘Á sombra do vulcão’ mais moderno. Exibido nos festivais de Toronto, de San Sebastián e no do Rio, é baseado no romance de 2014 do escritor britânico Lawrence Osborne ‘Balada de um pequeno jogador’.

 

Steve

O recém-ganhador do Oscar Cillian Murphy, por ‘Oppenheimer’, estrela a nova produção da Netflix, um drama, e cada minuto dele em cena é de puro brilhantismo. Ele dosa muito bem momentos que exigem temperamento explosivo a outros com mais racionalidade e pé no chão. Murphy interpreta um diretor de um reformatório que luta para que uma mudança no regime escolar não feche sua instituição. Nela estão estudantes agressivos, marginalizados pela sociedade e apartados da família, vários com crises de saúde mental. O tempo de duração do filme é de um dia inteiro na escola, com entra e sai de funcionários, discórdia entre eles e os alunos, frustrações com a reforma do ensino. Quem acompanha aquela rotina é uma equipe de filmagem que visitou o espaço para entrevistar o diretor, a equipe pedagógica e os estudantes sobre o possível o fechamento da escola – e desabafos principalmente dos alunos sobre a relação entre os colegas e sobre seus problemas pessoais. O filme, portanto, é um apanhado dessas gravações com depoimentos, que se assemelham a um documentário, e o ponto de vista dos personagens naquele dia difícil. Os papeis femininos são um estrondo, com grande momento em cena de Tracey Ullman e Emily Watson – que possivelmente devem concorrer a prêmios na temporada do próximo ano. A câmera na mãe e longos planos sequenciai são os desafios técnicos deste filme surpreendentemente positivo. Exibido no festival de Toronto, é baseado no livro do escritor Max Porter, que ele mesmo adaptou para as telas. O diretor, Tim Mielants, havia trabalhado com Cillian Murphy e Emily Watson num longa anterior, o difícil drama ‘Pequenas coisas como esta’ (2024). Disponível na Netflix.

 

Inverno em Sokcho

Produção original da Mubi, o streaming queridinho dos cinéfilos, o filme da Coreia do Sul e da França exibido nos festivais de Toronto e San Sebastiás acaba de estrear no streaming da Mubi Brasil. É um drama romântico cult, sobre uma jovem, de nome Soo-Ha, que trabalha em uma pousada na cidade costeira sul-coreana de Sokcho, coberta de neve. O inverno chegou pesado na região, portanto poucas pessoas saem pelas ruas. A moça vive entre a peixaria da mãe e a casa do namorado, até que a chegada de um artista francês a leva a questionar sua identidade. Os dias de inverno são longos, assim como as conversas entre Soo-Ha e o artista – eles percorrem pela cidade branca estabelecendo uma ligação por meio da arte e da comida. De condução tácita, a história sensível de uma nova amizade e choque cultural ganha novos contornos nesse filme de arte típico dos lançamentos da Mubi – os dois atores centrais estão bem, são eles a sul-coreana Bella Kim e o proeminente ator francês de origem marroquina Roschdy Zem, que já fez inúmeros trabalhos conhecidos do público, como ‘Chocolate’ (2016). A fotografia fria da neve na real cidade Sokcho é um deleite para os olhos.

Autor

Felipe Brida
Jornalista e Crítico de Cinema. Professor de Comunicação e Artes no Imes, Fatec e Senac Catanduva