Quem vamos convidar

Estão chegando as festividades de fim de ano. Dentro de cada um de nós um sino toca, algo mágico permeia os símbolos que nos fazem lembrar de tempos que ficaram na infância: presépio, papai Noel, presentes ao pé da árvore enfeitada, velas acesas, luzes coloridas, roupas vermelhas, brancas, amarelas, comidas típicas, troca de presentes, o pular das ondas - encantos, cidade colorida, casas enfeitadas, filmes com finais felizes, Tim-Tim.

As crenças nos convocam a pensar no ano que está chegando ao fim e no próximo que está acordando ao barulho de nossas intenções.

Quem éramos nas festas quando, ainda crianças, acreditávamos num mundo mágico e sem dor? Qual parte de nós ficou sem reparação e se coloca sempre à nossa frente para nos lembrar o verdadeiro sentido de tudo o que nos permeia? Talvez a que repetimos o tempo todo à espera de escuta, quando entendemos que as festividades podem se tornar oportunidades fecundas para compreendermos que em todas as situações, ao nos levarmos à própria companhia, estamos falando do que é mais profundo também para nós.

Entre tantos símbolos - a generosidade, a caridade, o não julgamento pedem, em silêncio, que possamos escutá-los transformando as festividades em experiências para além da noite de Natal e Ano Novo, traduzindo estas vivências festivas em intenções quando lembramos do tempo que enxergávamos um mundo sem guerra, sem preconceito, inclusivo, sem barreiras políticas, raciais e de gênero,  com comida na mesa de todos e sem as superficialidades que tanto cansam.

Para o Ano Novo, o meu desejo tem estado cada vez mais na escuta de mim mesma; e se os barulhos atormentam, tentamos aprofundar o que nos leva a perder tempo com o que não queremos que esteja conosco no próximo ano, pedindo generosidade primeiramente conosco, afinal, estamos na própria companhia desde que nascemos,  e se conseguimos enxergar a nós e as pessoas além do que mostramos quando tomados por sentimentos destrutivos como a inveja, o ciúmes, o poder, sem a consciência dos  próprios afetos, quem sabe podemos entender o que é nosso e o que é do outro diante de um mundo que nos pede escuta, compreensão, serenidade, transformação.

Em muitas famílias, o Natal é a festa do nascimento de Jesus, e mesmo não sendo festejado por muitos e em todas as culturas e religiões, o fato dele ter nascido, se conseguirmos entender o seu recado desde quando ele se fez um de nós,  enquanto celebração, esta festa contém muita reflexão. Ele nasceu simples, se inculturou, lutou pelo seu povo e por todos nós ao se colocar a serviço dos pobres, dos oprimidos, dos excluídos.

Nas festas de fim de ano, escutando o burbúrio que não se cala dentro e que pede o tempo todo uma escuta profunda e apurada de nós mesmos, que possamos estar presente naquilo que nos move enquanto pedimos um mundo com paz e ausência de egoísmo, nos convidando para estarmos na companhia de nós mesmos diante de um futuro que nos espera.

Boas festas a todos.

Música “Silver Bells” com Tony Bennett

Autor

Claudia Zogheib
Psicóloga clínica, psicanalista, especialista pela USP, atende presencialmente e online. Redes sociais e sites: @zogheibclaudia, @augurihumanamente, @cinemaeartenodivã, @livros.no.diva, www.claudiazogheib.com.br e www.augurihumanamente.com.br