Quem ri é motivo de piada

O riso popular expressa as manifestações carnavalescas, que ampliam contextos envolvendo a cultura do povo. São circunstâncias provedoras de licenciosidade, na veiculação da linguagem, e tornam-se passíveis de inúmeras interpretações. O romance “Gargantua” (1534), de François Rabelais, assume o riso à carnalidade – “Minha natureza exige que eu durma depois de comer e coma depois de dormir”. O nascimento de Gargantua ocorre em uma terça-feira obesa, quando Gargamelle expele o reto, ao fazer muita força, durante o parto, de sorte que a criança foi parida pela orelha esquerda da mãe. Eis o método gargamelleano: o referencial do riso conduz à loucura e, sem seguida, a imagens misteriosas. A irracionalidade provoca formas de exageros.

A destoância às tradições foi verificada, também, no quadro “Provérbios Flamengos” (1559), de Pieter Bruegel, em que os pecadores se confessam a diabos; as fezes são guardadas, como se fossem dinheiros; e os porcos passam a ser tosquiados. A imaginação transgressora leva o sujeito à loucura, que é alegre e atinge o aspecto trágico e sombrio das performances. Trata-se de uma alegoria carnavalesca, porquanto o contexto contrasta a realidade. O tratamento irregular continua cultivando discursos polêmicos, ainda que em tentativas de aculturação. A possibilidade de “situar-se” em diversos tempos e espaços (a vida sendo um teatro) impregnou a ideologia plural, os distintos papéis e inúmeras identidades. A alegria humana busca modos de reinvenção.

Em 1975, Chico Buarque e Maria Bethânia lançaram a canção “Noite dos Mascarados”, na qual o teatro carnavalesco divide-se nas vozes masculina e feminina – “Eu sou Colombina / Eu sou Pierrô”. Na Commedia dell’Arte italiana, Colombina, Pierrô e Arlequim formam um triângulo amoroso: Pierrô chora pelo amor à Colombina e ela é apaixonada por Arlequim. A aceitação da outridade faz com que o baile de máscaras reflita a vida cotidiana e o caráter ingênuo do povo. Arlequim representa o riso popular pelo desregramento da razão, o que enaltece o desenvolvimento da “loucura”, enquanto oportunidade de ser feliz. São sujeitos em performance grotesca exalando a essência humorística.

Esses modos humorísticos caem no entretenimento, ao elucidar figuras lendárias, como a do “Zé do Caixão” (1963). Modernizar o terror, diante da morte ambulante em corpo vivo, ocupa obscuridade performativa e propensão ao humor exacerbado. Mais tarde, em 1992, a Rede Globo estreou o programa humorístico “Casseta & Planeta, Urgente!”, pelo qual os personagens subvertiam a seriedade. “Seu Creysson”, uma caricatura da classe baixa, utilizava linguagem vulgar em método de chiste, que orbitava entre fantasia e realidade. Os objetivos satíricos oferecem uma rediscussão a respeito da conduta humana e trazem à tona caricaturas das culturas de certos nichos. Caricaturas abjetas dão margem à veiculação dos emergentes vícios sociais.

 Os vícios sociais produzem alternativas para o riso desprentensioso, visto que o tempo do chiste é a manifestação dos desejos inibidos. O método carnavalesco de produzir riso expõe o emissor artístico em direção ao receptor cômico, na esfera do sentido depreciativo. Alguns monarcas travestiam-se de mendigos, a fim de conhecer o caráter dos súditos e delimitar aspectos da cultura local. Quando o mendigo era (re)conhecido como o rei da localidade, a fantasia comprovava a segunda vida do monarca, pelo fim do mistério – quem ri é motivo de piada. Se a risada, essência carnavalesca, arrebata o sujeito a dimensões humorísticas, rir continua sendo o melhor remédio!

Imagem: Provérbios Flamengos (1559), de Pieter Bruegel

Autor

Prof. Dr. John David Peliceri da Silva
Formado em Letras, em Direito e Pedagogia. Mestre, Doutor e Pós-doutorando em Letras pela Unesp. Atua como Supervisor Educacional na Secretaria Municipal de Educação de Catanduva.