Quem mora no seu corpo?

O corpo só vira assunto ao começar a falhar. Até então, é tratado como ferramenta: carrega a rotina, sustenta a produtividade, suporta o cansaço. Vive-se nele, mas pouco com ele. A conta chega quando a exaustão aparece, quando o sono some ou quando a ansiedade encontra um lugar físico para se instalar. 

Habitar o próprio corpo exige interromper esse modo automático. Não se trata de estética ou disciplina, mas de consciência. O corpo registra escolhas diárias: jornadas longas, pausas inexistentes, emoções empurradas para depois. Ele não protesta imediatamente, mas avisa. Quem não escuta sinais acaba aprendendo pelo desconforto. 

Nesse ponto, a terapia deixa de ser recurso emergencial e passa a ser instrumento de leitura. Ajuda a identificar padrões repetidos, a entender por que o autocuidado sempre fica para depois e por que limites pessoais são ignorados sistematicamente. Não oferece atalhos, mas reorganiza prioridades, e isso muda a relação com o corpo de forma estrutural. 

Quando essa escuta começa, hábitos saudáveis deixam de ser metas heroicas e passam a ser escolhas sustentáveis. Dormir melhor, mover-se com regularidade, alimentar-se com atenção e respeitar o próprio ritmo deixam de ser castigo. O corpo responde à constância, não à cobrança. Ele coopera quando é incluído, não quando é pressionado. 

Amor-próprio perde o romantismo e ganha responsabilidade. Não é sobre gostar do que se vê no espelho, mas sobre cuidar mesmo sem motivação ou resultado imediato. É compromisso, não entusiasmo. E isso muda tudo. 

Habitar o próprio corpo não é um projeto de curto prazo nem um problema a resolver. É um processo contínuo de presença. Em uma cultura que valoriza desempenho acima de escuta, talvez a pergunta mais incômoda e necessária seja esta: até quando o corpo seguirá sendo apenas o lugar onde se vive, e não o lugar onde se está? 

Tati Riceli

Administradora e escritora

Autor

Colaboradores
Artigos de colaboradores e leitores de O Regional.