Quando os advogados se encontravam

Houve um tempo em que os advogados se encontravam.

Era no fórum, na sala da OAB, nos corredores, nos balcões, às vezes antes da audiência, às vezes depois. Um cumprimento rápido, uma troca de olhares, uma frase curta sobre o processo. Nem sempre uma conversa demorada, mas suficiente para lembrar que havia gente ali.

O processo eletrônico mudou tudo, trouxe a agilidade e praticidade que ninguém mais irá abrir mão. Ganhou-se tempo, se perdeu a presença.

O advogado passou a trabalhar mais sozinho, diante da tela, apenas indo ao fórum pelos poucos processos físicos remanescentes e para as audiências, ainda presenciais.

Porém, em poucos anos vieram as audiências virtuais, com a pandemia de Covid-19, que acelerou tudo.

Cada um no seu quadrado, cada rosto enquadrado, cada voz esperando a vez de falar, sem ver o todo, o comportamento dos participantes, sem sentir o tom do ambiente.

Os processos continuaram andando, petições protocoladas e sentenças proferidas. A advocacia seguiu funcionando, mas algo ficou pelo caminho: aquela proximidade silenciosa que não estava nos autos, mas fazia parte do ofício.

Mesmo em lados opostos, os advogados se reconheciam, havia divergência, claro, mas também havia um importante contato humano. Hoje, muitas vezes, o outro advogado é apenas um nome na tela, uma assinatura digital, um contato no whatsapp, às vezes bastante recorrente, mesmo sem nunca ter apertado suas mãos.

Talvez a advocacia tenha se tornado mais eficiente, contudo, também mais solitária. E, embora poucos digam isso em voz alta, muitos ainda sentem falta daqueles encontros breves e despretensiosos, que não resolviam o processo, mas lembravam que o direito é feito por pessoas, não apenas por sistemas.

Isso apenas reforça minha convicção, de que a parte mais importante do direito e dos processos são as pessoas, e para a advocacia só posso desejar que se mantenha unida, em contato real, pessoalmente, sempre que possível.

Autor

Evandro Oliveira Tinti
Advogado, especialista em Direito e Processo do Trabalho pela EPD, mestrando em Direito e Gestão de Conflitos pela Uniara e coordenador da comissão de Direito do Trabalho da OAB de Catanduva, e articulista de O Regional