Quando o ano termina, mas o cansaço emocional permanece

O último dia do ano costuma ser marcado por balanços, metas e expectativas para o futuro. No entanto, para muitas pessoas, o que realmente se impõe no 31 de dezembro não é a esperança imediata, mas um cansaço profundo — físico, mental e emocional. Um esgotamento silencioso que se acumulou ao longo dos meses e que, agora, já não pode mais ser ignorado.

Vivemos em uma sociedade que valoriza a produtividade acima do bem-estar. Trabalhar sem pausas, responder mensagens fora do horário, lidar com cobranças constantes e permanecer conectado o tempo todo tornou-se regra. Soma-se a isso o excesso de informações: notícias, redes sociais, comparações, opiniões e alertas que chegam sem descanso. O resultado é um adoecimento emocional cada vez mais presente, embora muitas vezes invisível.

Nos atendimentos psicológicos, é cada vez mais comum ouvir relatos de pessoas que dizem estar “funcionando”, mas não vivendo. Pessoas cansadas, irritadas, com dificuldade para dormir, com sensação de vazio, perda de prazer e dificuldade de concentração. Não se trata de falta de força, mas de um sistema que exige demais e oferece pouco espaço para o cuidado humano.

O fim do ano potencializa esse cenário. Há prazos a cumprir, contas a fechar, expectativas familiares, confraternizações obrigatórias e a pressão para “entrar bem” no novo ano. Pouco se fala, porém, sobre o direito de chegar cansado. Pouco se autoriza parar, respirar e reconhecer limites.

É importante dizer: exaustão não é fraqueza. É um sinal de alerta. O corpo e a mente falam quando não são ouvidos. Ignorar esses sinais pode levar a quadros mais graves de ansiedade, depressão, síndrome de burnout e outras formas de sofrimento psíquico.

Que este 31 de dezembro nos convide a uma reflexão diferente. Mais do que prometer produtividade, que possamos prometer cuidado. Reduzir excessos, respeitar pausas, selecionar informações, estabelecer limites e buscar ajuda quando necessário. Cuidar da saúde emocional não é luxo — é necessidade.

Que o novo ano não comece com pressa, mas com consciência. Que haja menos cobranças e mais humanidade. Porque a vida não precisa ser apenas suportada — ela precisa ser vivida com equilíbrio, presença e sentido.

Autor

Ivete Marques de Oliveira
Psicóloga clínica, pós-graduada em Terapia Cognitivo Comportamental pela Famerp