Quando as cinzas não são o fim, mas o recomeço

A Quarta-feira de Cinzas marca, para os cristãos, o início da Quaresma. É um dia de silêncio, introspecção e humildade. Ao receber as cinzas na testa, ouvimos: “Lembra-te que és pó e ao pó voltarás.” Não é uma frase de condenação — é um convite à consciência. Consciência da finitude, da fragilidade humana, das escolhas que fazemos e da possibilidade de recomeço. As cinzas simbolizam aquilo que foi queimado. Algo terminou. Algo se consumiu. Mas o que nasce depois?

A imagem da Fênix, a ave que renasce das próprias cinzas, atravessa culturas e séculos como símbolo de renovação. Diferente de uma simples reconstrução, o renascimento da Fênix implica transformação. Ela não volta a ser exatamente a mesma. Ela emerge marcada pela experiência do fogo. E talvez seja essa a grande metáfora da Quarta-feira de Cinzas: não se trata apenas de reconhecer perdas, erros ou dores. Trata-se de permitir que o fogo da experiência nos transforme.

Durante muito tempo, falamos de resiliência como a capacidade de suportar adversidades e “voltar ao normal”. O conceito vem da física: um material resiliente é aquele que, após sofrer pressão, retorna ao seu estado anterior. Na vida psíquica, ser resiliente é sobreviver à dor, reorganizar-se e seguir adiante. É fundamental. É saudável. É admirável. Mas… e se pudermos ir além?

O conceito de Nassim Nicholas Taleb, apresentado no livro Antifragile, propõe algo mais ousado: existem sistemas que não apenas resistem ao caos, mas melhoram com ele. Eles não voltam ao que eram. Tornam-se mais fortes, mais complexos, mais preparados. Isso é antifragilidade. Se a resiliência é sobreviver ao fogo, a antifragilidade é usar o fogo como forja.

Na clínica, na vida, nas histórias humanas que escutamos todos os dias, vemos pessoas que atravessaram perdas profundas, traições, doenças, falências emocionais. Algumas apenas resistem — e isso já é imenso. Outras, porém, transformam a dor em consciência, propósito e maturidade. Não romantizamos o sofrimento. O fogo dói. Queima. Desorganiza. Mas a Quarta-feira de Cinzas nos lembra que reconhecer nossa vulnerabilidade é o primeiro passo para uma transformação genuína. A humildade de admitir “sou pó” paradoxalmente nos fortalece. Porque quando aceitamos a impermanência, deixamos de lutar contra a realidade e começamos a aprender com ela.

Ser antifrágil não significa buscar sofrimento. Significa extrair sentido da experiência. É sair da posição de vítima das circunstâncias para a posição de autora da própria narrativa. Talvez a grande pergunta da Quarta-feira de Cinzas não seja “o que perdeu-se?”, mas “o que pode nascer daqui?” A Fênix não lamenta eternamente o incêndio. Ela entende que o ciclo faz parte de sua natureza. E nós? Entre cinzas e renascimentos, somos convidados a mais do que resistência. Somos chamados à transformação. Que esta Quarta-feira de Cinzas seja menos sobre o que terminou e mais sobre o que começa — não apenas como retorno ao que éramos, mas como a coragem de nos tornarmos algo maior, mais consciente e mais verdadeiro. Das cinzas, que renasça não apenas a mesma pessoa — mas uma versão expandida de si.

Autor

Ivete Marques de Oliveira
Psicóloga clínica, pós-graduada em Terapia Cognitivo Comportamental pela Famerp