Quando a economia se sobrepõe à segurança no trânsito

Como psicóloga que atua na área de avaliação psicológica para o trânsito, manifesto minha profunda preocupação com recentes decisões do Senatran que fragilizam a segurança viária e desvalorizam profissionais essenciais ao processo de habilitação.

A redução do valor do exame médico e psicotécnico tornou-se incompatível com as altas exigências impostas às clínicas credenciadas. Manter estrutura adequada, cumprir normas rígidas, investir em formação contínua e assumir responsabilidade técnica tem um custo real. Em cidades como Catanduva, onde há grande número de clínicas, a concorrência somada à desvalorização do serviço torna a atividade financeiramente insustentável.

Outro ponto alarmante é a renovação automática da CNH para motoristas que não possuem infrações, sem a realização de exames médico e psicológicos. A ausência de violações não garante plena aptidão para dirigir. Problemas de visão, transtornos mentais, alterações cognitivas e condições emocionais podem surgir ao longo do tempo e permanecer invisíveis sem avaliação adequada.

Ainda mais preocupante é o fato de que o candidato à primeira habilitação pode optar por realizar apenas duas aulas com instrutor e, ainda assim, ser considerado apto para dirigir. Isso reduz o processo de formação a um cumprimento formal, esvaziando seu caráter educativo e preventivo.

O trânsito é um espaço coletivo. Decisões que flexibilizam avaliações, formação e acompanhamento colocam em risco não apenas quem dirige, mas toda a sociedade. Economizar em saúde, prevenção e qualificação tem um custo alto: vidas.

Valorizar os exames médico e psicotécnico, a formação responsável e os profissionais envolvidos não é um luxo — é uma necessidade urgente para um trânsito mais seguro e humano.

Autor

Ivete Marques de Oliveira
Psicóloga clínica, pós-graduada em Terapia Cognitivo Comportamental pela Famerp