Qual a lição que fica?
O futebol de base deveria ser uma escola de valores. Um ambiente de aprendizado, respeito, disciplina e convivência. Mas o episódio lamentável ocorrido em Catanduva, durante partida da Copa AME sub-14, expôs justamente o contrário: adultos incapazes de controlar os próprios impulsos e que, diante de adolescentes em formação, transformaram um jogo infantil em caso de polícia. A agressão sofrida pelo árbitro Thiago Carlos Berni não pode ser tratada como um fato isolado ou consequência “do calor da emoção”. Quando pais, responsáveis e torcedores partem para a violência diante de decisões tomadas dentro de campo, o que estão ensinando a esses jovens atletas? Que perder é intolerável? Que a agressão física é um caminho aceitável para resolver conflitos? Que autoridade se enfrenta no grito, na ameaça ou no soco? É impossível ignorar o papel dos adultos nesse cenário. Meninos de 13 e 14 anos ainda estão formando caráter, absorvendo referências e reproduzindo comportamentos. E seus maiores espelhos são justamente aqueles que os acompanham nas arquibancadas. Se os responsáveis agem com descontrole, hostilidade e violência, dificilmente poderão cobrar serenidade, respeito e equilíbrio emocional de seus filhos. O esporte tem potencial para ensinar lições preciosas: saber ganhar sem humilhar, perder sem agredir, competir sem odiar. Mas tudo isso perde força quando o exemplo vindo de fora das quatro linhas é o da intolerância. O que deveria ser incentivo transforma-se em pressão. O que deveria ser apoio vira combustível para revolta. Mais preocupante ainda é perceber que muitos adultos parecem viver, através dos filhos, frustrações pessoais mal resolvidas. Transferem para crianças e adolescentes uma cobrança incompatível com a idade e esquecem que, antes de atletas, eles são jovens em desenvolvimento. Nenhuma derrota justifica violência. Nenhuma expulsão autoriza agressão. Nenhum campeonato vale mais do que a integridade física e moral das pessoas envolvidas. Se queremos uma sociedade menos violenta no futuro, o exemplo precisa começar agora — principalmente por quem tem o dever de educar. Porque filhos aprendem muito mais observando atitudes do que ouvindo discursos.
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