Protagonismo omitido e identidade exposta
As especificidades do sujeito, muitas vezes, não são destacadas em narrativas elitizadas, porquanto enfatizam visões necessárias de hierarquia social. A arte de contar histórias marca experiências e deslocamentos identitários, visto que provam a rememoração, enquanto via de acesso às circunstâncias omitidas na enunciação superior. A imagem desalienante sugere que a proeminência possa ter ocorrido, pela razão de as versões discursivas não apresentarem alternância imagética. Uma das finalidades é a discussão arrebatadora, na qual protagonismos reivindicam o verdadeiro valor do considerado “insignificante”. Quando o valor significativo condecora o excêntrico, as referências identitárias provam a existência de “todo”.
Bertolt Brecht publica, em 1939, “Poesias de Svendborg”, obra que traz poemas redigidos durante um período exílico do autor na Dinamarca. O poema “Perguntas de um Operário Letrado” configura novas visões a respeito de contextos históricos e sociais. “Quem construiu Tebas, a das sete portas? Nos livros vem o nome dos reis, mas foram os reis que transportaram as pedras?”. O questionamento operante organiza o fluxo circunstancial, pois a vitória parece estar no começo das narrativas. O reajuste arquitetônico prova o heroísmo reflexivo, crítico e ideológico. “Babilônia, tantas vezes destruída. Quem outras tantas a reconstruiu?”. A menção à pilhagem sofrida pelos babilônicos confirma versões exitosas da mão de obra.
A invisibilidade de personagens esquecidos, cujas obras são pautadas, atesta a linha vertical sendo venerada. “Em que casas da Lima Dourada moravam seus obreiros?”. A definição do ser atuante se dá pela produção, na qual glória é atrelada à fama pessoal das autoridades. O modus operandi é decorrente da circulação ativa. “A tão cantada Bizâncio só tinha palácios para os seus habitantes?”. A proximidade humanizadora emprega os desdobramentos dos fatos históricos, que rediscutem geograficamente. A diferença socioespacial legitima a representatividade cultural. A presença gentílica reelabora um balanço da existência de uma cidade, na qual os sujeitos ilustram cenários pouco contemplados pelos leitores e historiadores.
A interação passado–presente contribui para o potencial identitário, já que documenta a sensibilidade. “Quando a sua armada se afundou Filipe da Espanha chorou. E ninguém mais?”. A guerra expõe que os males sofridos pelos combatentes transitam pelo mesmo objetivo: a vitória. A liberdade da visão conduz o leitor a ouvir o pranto diante de crueldade e injustiças na caracterização social. “Em cada página uma vitória. Quem cozinhava os festins?”. Refinar os sucessos esmaga indivíduos responsáveis por assujeitamento, porque as páginas históricas enaltecem o controle instituído pela sociedade. As estruturas de poder tendem a cultuar a conclusão dos fatos frente ao papel crucial de figuras importantíssimas, contudo rejeitadas.
As figuras rejeitadas incorporam o conflito com a tradição cultural. “Em cada década um grande homem. Quem pagava as despesas?”. Os vínculos contextuais estruturam o estigma imagético – grande homem –, por meio do qual os espetáculos se esquecem dos figurantes, quando estes abrem cenas e exercem o verdadeiro protagonismo. A (des)montagem concebe novas identidades, tendo em vista o ato de desvelamento da atuação em expansão adjetiva. Obras e qualidades humanas guiam identidade preponderante no viés de restrição. A agremiação dos festins leva em conta o povo e sua função pecuniária. Por fim, o protagonismo cultiva a omissão, todavia as identidades expostas produzem um desfecho eficaz: “Tantas histórias. Quantas perguntas”.
Imagem: Quarto Estado (1901), de Giuseppe Pellizza da Volpedo
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